24/09/2010 - 03h09
Dardos contra a água engarrafada

Por Emilio Godoy, da IPS

 

Cidade do México, México, 24/9/2010 – O México é o país do mundo que consome maior volume de água engarrafada por pessoa, fato que alarma as organizações não governamentais porque evidencia a precariedade no acesso a água potável. A sociedade civil organizada também destaca a direta responsabilidade da indústria do setor nesta negativa primazia do país, segundo a empresa norte-americana Beverage Marketing Corporation, que assessora as empresas de bebidas.

De acordo com o estudo, o consumo anual per capita no México, com 108 milhões de habitantes, chegaria a 234 litros, contra 110 litros dos Estados Unidos, que tem 310 milhões de pessoas. Outra estatística mais conservadora, do Instituto Nacional de Geografia e Estatística, mostra que, em 2008, foram vendidos quase seis bilhões de litros de água purificada, cerca de dois bilhões de litros a mais do que em 2001.

A desconfiança da população com a qualidade da água potável levou ao consumo do líquido engarrafado, embora os sistemas municipais de distribuição do recurso assegurem que a água pode ser bebida. Para Nathalie Séguin, da Rede Mexicana de Ação pela Água, também “existem dúvidas sobre a qualidade da água engarrafada. Além disso, é uma produção insustentável, pois as multinacionais vendem caro a água, que para elas é barata”, disse à IPS.

A comercialização da água engarrafada aumentou ao ritmo anual de 8,1%, segundo a Associação Nacional de Produtores e Distribuidores de Água Purificada. “Isto ocorre pela omissão da obrigação de fornecimento de água potável em um sistema no qual não há clareza sobre a limpeza da água recebida em casa”, disse à IPS Claudia Campero, coordenadora para a América Latina do canadense Projeto Planeta Azul, que busca proteger a água doce do mundo.

Esta semana, chefes de Estado e de governo de todo o mundo discutiram, na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, uma nova estratégia frente aos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) acordados pela Assembleia Geral em 2000.

Os ODM são reduzir pela metade o número de pessoas que sofrem pobreza e fome, com relação a 1990; garantir a educação primária universal; promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil e a materna; combater a aids, a malária e outras enfermidades; assegurar a sustentabilidade ambiental, que inclui a meta específica do acesso a água e saneamento, e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento. Tudo isto até 2015.

O México praticamente já alcançou a meta de reduzir pela metade a proporção de pessoas sem acesso sustentável a água potável e a serviços básicos de saneamento entre 1990 e 2015, segundo o informe “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Avanços na Sustentabilidade Ambiental do Desenvolvimento na América Latina e no Caribe 2010”, da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Contudo, esta agência alertou que, enquanto os municípios do norte mexicano, fronteiriços com os Estados Unidos, mostram níveis elevados de acesso a água potável, as localidades em piores condições estão no centro e sul do país. Contudo, 9,7% da população mexicana ainda carece de acesso a água e 13,6% a saneamento, segundo a Comissão Nacional da Água (Conagua).

Para 2011, o projeto de orçamento nacional, enviado pelo presidente Felipe Calderón ao Congresso, propõe redução de 21% para o setor de água potável e esgoto, baixando de US$ 1,4 bilhão este ano para US$ 1,116 bilhão. Em uma resolução sem precedentes, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou em julho o acesso a água e saneamento um direito humano, o qual aplicará em todo seu sistema de direitos humanos.

O México recebe por ano 1,489 bilhão de metros cúbicos de água em forma de chuva: 73,2% evapora, 22,1% alimenta rios e riachos, e o restante se infiltra no subsolo e recarrega os aquíferos, segundo o informe governamental Estatísticas da Água no México 2010. Dos 653 aquíferos do país, 101 estão superexplorados. Por isso, entre 1950 e 2007 a disponibilidade média por pessoa caiu de 18.035 metros cúbicos por habitante ao ano para 4.312.

Organizações sociais a favor do direito à água potável denunciaram que aquela que chega às casas pode conter bactérias, arsênico e minerais pesados. Por isso, pedem melhoria no sistema de monitoramento de sua qualidade, para que seja feito em tempo real. Desde 1996, a Conagua emprega a Rede Nacional de Monitoramento da Qualidade da Água, cujos objetivos são avaliar as tendências da qualidade da água, fortalecer o cumprimento da regulamentação sobre a contaminação dos corpos de água e identificar problemas associados com contaminantes, como arsênico e metais.

O volume de água tratada cresceu de 84,5% em 1991 para 97,1% em 2008. Um ano antes, as doenças infecciosas intestinais vinculadas à má qualidade da água foram a terceira causa de morte em crianças menores de quatro anos, com 1.465 falecimentos, segundo o Ministério de Saúde Pública. Neste país operam cerca de oito mil empresas engarrafadoras e distribuidoras de água, mas o mercado é dominado pelas norte-americanas Coca-Cola, e sua filial Fomento Econômico Mexicano (Femsa), e Pepsi Cola, além da suíça Nestlé e a francesa Danone, segundo a Associação Nacional de Produtores e Distribuidores de Água Purificada.

Em 2008, segundo a Conagua, a Coca-Cola recebeu 151 concessões para exploração de águas subterrâneas, com volume de extração anual de 29,5 milhões de metros cúbicos. A Pepsi Cola obteve 40 permissões, com 7,9 milhões de metros cúbicos, a Danone 32 licenças, 4,8 milhões de metros cúbicos, e Nestlé com 21 licenças e 5,2 milhões de metros cúbicos. As empresas citadas não responderam a consulta da IPS a respeito.

“O México precisou adotar políticas públicas para garantir o direito humano à água, o que teria que se expressar no acesso a água potável de qualidade por meio da rede de fornecimento”, disse Nathalie. “O esquema gera grandes injustiças em nível local, porque em lugar de ter acesso a fontes de melhor qualidade, as comunidades se veem relegadas a outras fontes de menos qualidade, como os poços”, alertou Claudia, que também representa a organização norte-americana Food and Water Watch. Envolverde/IPS


(IPS/Envolverde)