22/03/2011 - 10h03
Divino tesouro

Por Thalif Deen, da IPS

 

 

Nova York, Estados Unidos, 22/3/2011 – O rápido crescimento das cidades, que faz com que ao lado de exuberantes obras arquitetônicas haja assentamentos irregulares, exige um pensado planejamento urbano com vistas ao uso eficiente da água. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, disse que a cada 20 segundos morre uma criança por doença derivada da falta de água potável e, também, que se “perde 1,5 milhão de jovens vidas por ano”.

Em 2025, 1,8 bilhão de pessoas viverá em países ou regiões com grande escassez de água e dois terços da população mundial o fará em condições de carência extrema, informou a ONU Água, uma coalizão integrada por representantes de 24 organizações das Nações Unidas. Atualmente, 70% da água doce destina-se à irrigação, 22% à indústria e cerca de 8% ao uso doméstico.

Mais de 884 milhões de pessoas não têm água potável no mundo, enquanto 2,6 bilhões, dos seis bilhões de habitantes do planeta, carecem de um sistema de saneamento adequado, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A demanda supera o fornecimento, mas “neste 22 de março, Dia Mundial da Água, temos que nos comprometer em manter uma nova relação com ela”, disse Maude Barlow, cofundadora da organização Blue Planet Project, que defende o direito universal de acesso à água. É preciso “conservá-la; recuperar os cursos de água; evitar a contaminação das fontes, o que deve ser considerado um crime, e fazer um uso mais equitativo pelo bem dos humanos, do futuro, e das outras espécies”, acrescentou.

“Pessoas, ideias e mercadorias se movem na periferia dos centros econômicos onde maravilhas arquitetônicas se erguem para o céu enquanto à sua sombra crescem assentamentos irregulares”, disse Anders Berntell, diretor-executivo do Instituto Internacional de Água de Estocolmo. Em 2050 haverá mais pessoas nas cidades do que a quantidade de habitantes existentes hoje em todo o mundo.

O tema da comemoração da Semana Mundial da Água em Estocolmo, que começou ontem e terminará no dia 27, é “Responder às Mudanças Globais: Água em um Mundo Urbanizado”. Um melhor planejamento urbano quanto ao uso e reuso da água pode contribuir de forma significativa para reduzir as tensões sociais e econômicas dentro, entre, e em torno das cidades, afirmou Anders.

A Iniciativa de Defesa Wash, com sede em Washington, elogiou um projeto de lei aprovado no Senado dos Estados Unidos no dia 16, que coloca este país à frente da resposta à crise de água potável e saneamento. A “Lei Água para o Mundo, do senador Paul Simon” compromete os Estados Unidos com o fornecimento de água potável e saneamento de forma sustentável, segura e acessível para cem milhões de pessoas em seis anos, diz o comunicado divulgado no dia 18. “A iniciativa bipartidária colocará os Estados Unidos à frente dos esforços para cumprir o Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU em matéria de água potável e saneamento”, destaca o comunicado.

A principal causa da crise atual é que “os humanos modernos consideram que a água é um enorme recurso para nosso prazer, conveniência e beneficio, e não um elemento essencial de um ecossistema vivente que nos dá a vida”, disse Maude à IPS. “Contaminamos e retiramos todos os anos uma quantidade de dejetos industriais e humanos dos cursos de água equivalente ao peso da humanidade. A extraímos de rios e riachos e levamos às grandes cidades e, se estão perto do oceano, então se joga fora como lixo, uma das principais causas do aumento do nível do mar”, explicou.

“Irrigamos zonas desérticas para plantar, contaminamos água com minério, energia nuclear, areia com alcatrão e vazamento, e deixamos que se perca por encanamentos velhos porque não temos dinheiro para investir em infraestrutura pública”, lamentou Maude, ex-assessora da ONU na matéria.

As Nações Unidas reconheceram que o acesso à água e a um sistema de saneamento são um direito humano, isto é, “que os governos têm de criar um plano de ação baseado na obrigação de proteger, respeitar e cumpri-lo”. A ONU deve se concentrar em conservar a água, restaurar os cursos hídricos e encontrar um meio para que seja uma maneira de promover a paz, ressaltou.

“Precisamos declarar a água patrimônio comum, um bem e um serviço público e devemos apoiar o governo da Bolívia em sua iniciativa de declará-la um recurso a ser protegido como um direito e não permitir sua distribuição com fins lucrativos”, disse Maude. “Precisamos da água. Ela pode nos ensinar a viver em harmonia entre nós de maneira melhor na Terra se tivermos olhos para ver e ouvidos para ouvir”, acrescentou. Envolverde/IPS

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Crédito:
Angel Boligan
(IPS/Envolverde)