AQUÍFEROS: “CIRCUITO DAS ÁGUAS VERSUS GUARANY”

 

26/01/2011
 

É verdade que o aqüífero Guarany “passa” pelo Circuito das Águas?!

Não! É inviável tanto geográfica (localização) quanto geneticamente (Rochas hospedeiras).

São entidades totalmente distintas, inclusive no quesito idade das rochas que os hospedam. As rochas componentes do aqüífero “Circuito das Águas” têm suas idades referidas ao pré-cambriano (mais de 1.000.000.000 de anos) enquanto as do aqüífero “Guarany” são bem mais ‘novas’ ou seja pertencem ao paleozóico/cenozóico (de 65.000.000 a 500.000.000 de anos, aproximadamente). Portanto, a idade máxima das rochas componentes do aqüífero “Guarany” é, quando muito, a metade da idade daquelas rochas atribuídas ao aqüífero “Circuito das Águas”.

Quanto à gênese (origem) e natureza das rochas, as diferenças são também enormes. Enquanto o aqüífero “Circuito das Águas” liga-se à formação da Serra da Mantiqueira e compõe-se, essencialmente, de rochas gnaissicas e intrusões alcalinas, o “Guarany” representa um dos maiores desertos que já existiram nesse planeta – “deserto Botucatu” – e suas rochas são denominadas arenitos, originados das areias do referido deserto. Até o início da década de 90, o aqüífero era conhecido como aqüífero da Bacia do Paraná, somente quando foi criada uma comissão para estudá-lo, devido à necessidade de conhecê-lo melhor, para poder preservar a qualidade e quantidade de suas águas, é que passou a se chamar aqüífero Guarany em homenagem aos índios Guarany, que ocuparam, aproximadamente, a mesma área hoje ocupada pelo aqüífero. Sua formação (aqüífero) deu-se, quando houve a separação continental África /América do Sul, a cerca de 200.000.000 de anos. Durante a separação continental, milhares de km³ de basalto (rocha de origem vulcânica) extravasaram através de fraturas imensas (denominadas geoclases) surgidas na crostra terrestre durante esse evento. Tais rochas vulcânicas, os basaltos, cobriram as areias do “deserto Botucatu”. Com o resfriamento dessas rochas, houve o aparecimento de intenso fraturamento (fraturas resultantes de choque térmico) nessas e nas rochas subjacentes, então formadas e compostas pelos arenitos. Houve então a penetração das águas pluviais (chuvas) vindo a se constituir, nos dias atuais, em uma das maiores reservas de água doce do planeta, que é o tão propalado aqüífero Guarany. Este aqüífero distribui-se pela Argentina, Paraguai, Uruguai e, principalmente, pelo Brasil, onde é encontrado nos quatro Estados da região sul (RS, SC, PR e SP). Em MG, poderemos encontrá-lo no Triângulo mineiro em Goiás, na parte sul do Estado e em MT do Sul, na sua parte SE (sudeste). Na verdade, o aqüífero “Guarany” é composto por inúmeros aqüíferos menores, que se justapõem em níveis diferentes, resultado de uma movimentação da crosta terrestre (movimentação tectônica), que formou blocos altos e blocos baixos (horsts e grabens). Resumidamente, este é o aqüífero “Guarany”.

Já o aqüífero do Circuito das Águas teve sua origem ligada ao soerguimento da mega estrutura denominada Serra da Mantiqueira. A gênese (origem) da Serra se liga ao ciclo Brasiliano (650.000.000 de anos) quando houve o início da formação da mega estrutura. Entretanto, a Serra como Serra mesmo, só ficou pronta mais recentemente e tem, aproximadamente, a mesma idade da separação continental, ou seja: 200.000.000 de anos. Em outras palavras, os dois aqüíferos são, aproximadamente, contemporâneos. As rochas que os compõem é que tem idades muito diferentes. O que conferiu a capacidade de armazenar água nos dois aqüíferos também se relaciona a fatores diferentes, quais sejam: porosidade nos arenitos e fraturamento nos gnaisses e rochas alcalinas.  A porosidade e permeabilidade é mais ou menos intrínseca aos arenitos. Já os gnaisses e rochas cristalinas têm porosidade e permeabilidade intrínsecas baixíssimas, portanto, naturalmente não constituem aqüíferos. Aí é que está a singularidade do nosso aqüífero: ele existe graças a uma série de fatores singulares que se aglutinaram para formar a Serra da Mantiqueira e o aqüífero “Circuito das Águas. Como já vimos, as rochas cristalinas que compõem o nosso Aqüífero, não armazenam e, conseqüentemente, não seriam produtoras de águas, caso não tivesse passado por , no mínimo três eventos de movimentação da superfície terrestre (movimentações crustais ).Uma no cretáceo, outra no oligoceno e uma última no final do Terciário. Estas movimentações que atingiram a Serra da Mantiqueira e arredores, fraturaram intensa e continuamente suas rochas. Por outro lado, o movimento ascensional (de subida, formação) da Serra da Mantiqueira, ainda não cessou completamente, sendo muito lento e imperceptível aos sentidos humanos, porém de importância imensa para que as rochas cristalinas sejam boas produtoras de águas, pois não permitiram a “cicatrização” (fechamento) das fraturas já citadas e desenvolvidas ao  longo do tempo geológico. São essas fraturas semi-abertas, não cicatrizadas que permitem a descida, acúmulo e transferência de um ponto a outro, das águas pluviais (águas da chuva). As fraturas “dariam” a porosidade e a interconexão entre elas, a permeabilidade. E olha que falamos somente de duas singularidades (movimentação crustal/fraturamento, ascensão remanescente/fraturas abertas). Existem muitas outras singularidades no Circuito das Águas que permitiram a sua implantação em nossa região e não em outro lugar. Em uma próxima oportunidade falaremos sobre a importância da  turfa (barro preto ou “tijuco”) para a existência e manutenção do gás das nossas águas minerais. Como podemos ver, a natureza, através do  Criador, caprichou ao implantar o aqüífero de águas minerais nesse maravilhoso pedaço de chão que “escorre” pela aba norte da Serra da Mantiqueira, atingindo cerca de 100km de distância da sua linha de cumeeira.    

                                                                                                                                        São Lourenço, setembro de 2010

Gabriel Tadeu Franqueira Junqueira- Eng° Geólogo CREA-MG n° 17.772/D

 Sócio-gerente e diretor da ITAMBIENTAL-abertura de poços tubulares e consultoria.