04/09/2009 - 01h09
Debate sobre clima precisa incluir a questão da água

Por Fabrício Ângelo, da Envolverde

 

Para Maude Barlow, chefe do Council of Canadians, a maior organização canadense de militância pública, e fundadora do Blue Planet Project, é preciso incluir urgentemente nos debates sobre mudanças climáticas a questão da água. Em entrevista exclusiva à Envolverde, em São Paulo, onde fez duas palestras, Barlow destaca as prioridades para a questão e assegura que é preciso mudar a mentalidade do mundo em relação à água, deixando de vê-la apenas como um recurso econômico.

Maude Barlow recebeu o prêmio sueco Right Livelihood Award (o "Nobel Alternativo") por seu trabalho no movimento pela justiça da água, é autora de 16 livros, incluindo (com Tony Clarke) Ouro azul (publicado no Brasil pela editora M. Books), que foi traduzido para 16 idiomas e publicado em quase 50 países. Barlow é membro do World Future Council e participa do conselho diretor do Food & Water Watch e do International Forum on Globalization.

Envolverde - Os cenários traçados pelo seu livro Água, o Pacto Azul, não são nada otimistas. Você apresenta muito bem os problemas, mas não há destaque para as soluções. O que é preciso ser feito para evitar essa tragédia?
Maude Barlow - Bem, meu próximo livro chamado O Futuro Azul trará algumas dessas soluções. O mais importante é que precisamos ver a água de um modo diferente. Deixar de ver a água como um recurso econômico e entendê-la como um fator de sobrevivência. Posso citar três importantes prioridades.
A primeira é proteger as nascentes, os aqüíferos, os mananciais, acabar com as represas e implementar leis mais rígidas que diminuam a poluição, como acontece no norte da Alemanha, onde a água deve ser tratada para voltar a ter a sua potabilidade e quem a polui é severamente punido.

É imprescindível dar preferência a políticas que levem a água a quem precisa, e essa é a segunda prioridade. Cada país tem suas peculiaridades quanto à quantidade disponível, mas em todo o planeta deve-se preservar os ecossistemas aquáticos. A ideia é declarar mundialmente a água como um bem público, como uma herança para as futuras gerações e um direito humano.

A terceira prioridade é a produção de alimentos de forma sustentável no uso comercial. O uso da água para esses empreendimentos deve ser embasado em um sistema permissionário, onde a indústria pague pelo que usa, não tendo o direito de poluir esse bem. Essas três prioridades são fundamentais para salvar a água.
Só mais um detalhe. No mundo todo temos extraído água de aqüíferos, rios e lagos, para levar às grandes metrópoles, como São Paulo. Quando extinguirmos essa fontes, veremos o quanto foi desperdiçado nesse tempo.

EV - E de quanto é esse desperdício?
MB - Estamos finalizando uma pesquisa que mostra que o ser humano desperdiça quase 70 trilhões de litros de água doce por ano. Isso porque não existem políticas para incentivar o reuso da água. O que acontece é que essas cidades, por estarem próximas  dos oceanos, tiram a água dos lençóis freáticos e dos aqüíferos e mandam pro oceano, onde ela se perde.

Isso afeta as mudanças climáticas, pois estamos tirando a água das nascentes e criando relevos desérticos então essas práticas precisam ser banidas. Nesse momento na maioria dos países, inclusive o Brasil, é um bom exemplo o uso comercial da água é o que importa.


 

EV - Como o Brasil está posicionado em relação a proteção da sua água?
MB
- O Brasil hoje é um dos quatro maiores captadores de água do mundo, junto com Canadá, Estados Unidos e Austrália. Apesar de que a Austrália está parando essa captação porque sua água doce quase não existe mais.
Além da questão dos biocombustíveis, outro problema sério é a utilização de agrotóxicos nas plantações que acabam contaminando lençóis freáticos e mananciais. Apesar de sua grande quantidade de água doce, nem o Brasil, nem nenhum país no mundo está imune à extinção de seus reservatórios naturais.

EV
- Quanto custaria aos governos uma tentativa de minimizar esses impactos sobre as reservas de água?
MB - Primeiramente, não é uma questão econômica e sim de sobrevivência. Estudos indicam que com 20 a 30 bilhões de dólares é possível sanear todos os continentes, inclusive levando água às pessoas que não tem esse direito. É um gasto ínfimo se você for para pensar, mas infelizmente não se resume só em dinheiro, é necessária também uma coragem política, que vai de encontro ao agronegócio, as mineradoras, empresas de energia, entre outras.

EV
- O Brasil tem se denominado um país ambientalmente correto, com produção de energias limpas. Mas de que forma essa produção, em especial os biocombustíveis, podem prejudicar os depósitos de água doce?
MB
- Eu não me oponho aos biocombustíveis, pois são uma boa forma de se reduzir emissões de gases efeito estufa, mas no Brasil essa indústria está se monopolizando, até porque a maior parte de sua produção será voltada a exportação.

São empresas multinacionais, com grandes latifúndios em detrimento de pequenos produtores locais, além de poluir rios e nascentes. Já encontramos resíduos de cana-de-açúcar no Aquífero Guarani, além do que são usados muitos litros de água (1.400 litros para cada um de etanol) para a produção dessa forma de energia e de maneira insustentável. Esses empresários ainda pensam que a água é um recurso infinito.

Um exemplo do que pode acontecer aqui é o que aconteceu com o extinto Mar de Aral, na antiga URSS, que foi extinto por causa da superutilização da água na produção extensiva de algodão. Na África existem 677 grandes lagos com o mesmo problema. Então, digo que todos os lugares do mundo devem proteger seus mananciais, e a expansão dos biocombustíveis (nesse modelo) é um grande erro, não só para a água, mas também para a sociedade.

EV - Como podemos então democratizar esse acesso a água? Existe algum modelo?
MB - Bem, no estado de Vermont, nos Estados Unidos, eles estavam preocupados com a excessiva exploração de água, principalmente das engarrafadoras. Há dois anos o município aprovou uma lei que dá a água o status de bem público onde o governo prioriza sua utilização para consumo da população e agricultura sustentável. A empresa tem um limite de exploração que se ultrapassado tem que pagar uma sobretaxa.

Esse é um dos poucos bons exemplos, embora ultimamente percebamos mais países procurando opções para minimizar a exploração de suas reservas aqüíferas. Mas isso deve ser feito antes desse recurso se esgotar, como em Israel, que não pode mais exportar produtos agrícolas devido à escassez de água.

Outra questão é o fim das commodities de milho, feijão, soja e outros grãos, que são responsáveis por absorver 1/3 da água do mundo. Nos Estados Unidos existe um movimento chamado "Esta terra, esta água" que busca sua utilização somente na produção local. A tendência é uma regionalização da economia, que um amigo chama desglobalização, mas o Brasil parece que toma rumos opostos.

EV - Por enquanto falamos sobre água doce, mas e os biomas oceânicos?  Quais os impactos que tem sofrido, principalmente em seu ecossistema tão saturado e explorado?
MB - Bom, meu marido parou de comer peixe e disse que se todos parássemos por três gerações, os oceanos se regenerariam (risos).
A solução para os oceanos é quase a mesma dos rios, não poluí-los e também impedir os métodos de pesca não artesanais, como as redes de barcos pesqueiros. Precisamos desenvolver um planejamento para a utilização da água oceânica.

EV - Você acha que os processos de dessanilização, praticados em países do Oriente Médio podem melhorar a distribuição de água à população mundial?
MB - Não falamos muito disso e posso certificar que é uma má solução. É um processo que demanda muita energia, emite muitos gases de efeito estufa e joga um produto que é venenoso no oceano. Quando eles retiram a água salgada para o processo, jogam tudo no dessalinizador, inclusive vida marinha que está nela. Após o processo químico, ele dessaniliza a água, mata qualquer tipo ser que está ali, joga esse resíduo de volta ao oceano, criando uma zona morta que é uma outra ameaça aos oceanos.  O processo de dessanilização faz parte de uma política ambiental que o mundo vem insistindo há anos, que significa resolver um problema e criar outro.


 

EV - O que você tem visto pelo mundo em termos de movimentos para a preservação da água?
MB – Bom, posso dizer que estou um pouco otimista e um pouco pessimista. Acho na conscientização sobre a questão da água estamos uns cinco anos atrás das mudanças climáticas, em termos de consciência geral, mas está acontecendo. Já temos muitas campanhas contra as engarrafadoras, muitas cidades voltando a adotar um sistema público de gestão. Podemos também ver muitas leis sendo aprovadas para punir os poluidores, assim como muitas empresas começando a implantar políticas de reuso e economia de água. É preciso fazer agora, pois os relatórios da ONU são assustadores, mostrando que três bilhões de pessoas no mundo vivem sem acesso à água potável. A partir de agora é vida ou morte e nenhum país está ileso. Por isso quem ainda tem água deve cuidar.

EV - Alguns pesquisadores dizem que uma próxima guerra mundial pode ser causada pela disputa dos reservatórios de água potável. Qual a sua opinião?
MB - Em meus dias ruins, acredito nisso pois vemos muitas coisas acontecerem. Os EUA e a China já estão considerando a água como assunto de segurança nacional e estão mapeando as principais reservas no mundo.

Por isso precisamos ser muito cuidadosos com os aqüíferos, principalmente de Guarani. Haverão conflitos entre nações que estejam perto de nascentes. Outros conflitos previsíveis serão entre a comunidade urbana e rural, incluindo reservas indígenas e de proteção, que tem seus mananciais preservados.

Mas nos meus bons dias, posso ver a água trazendo a paz. E dou um exemplo de uma ONG internacional chamada Amigos da Terra, que vem propondo reuniões entre israelenses, palestinos e libaneses somente para falar sobre água. Eles não falam de religião ou política, mas querem proteger o Rio Jordão e o Mar Morto. Esse programa se chama Environmental Peace, e se juntaram para destruir parte do muro construído por Israel para separar Gaza e existem outros utilizando a discussão da escassez para debater paz.

EV – Com a hegemonia do tema do aquecimento global, onde podemos encaixar a questão da água para que ela seja mais abordada, principalmente pelos meios de comunicação?
MB - É para isso que estou aqui e não aproveitando o término do verão no Canadá (risos). Temos que contar a história de que a poluição, o desmatamento e o abuso no uso da água é uma importante causa das mudanças climáticas. Se não analisarmos isso de forma correta não vamos achar nenhuma solução.

Eu tenho o desejo de ver esse tema debatido na COP 15 em Copenhagen, mas é muito difícil. Eles estão muito focados em gases de efeito estuda e mercado de carbono, e só isso. Se encontrarmos uma solução para a água, encontraremos para o aquecimento global, pois é ela que ajuda a reduzir as temperaturas e produz a chuva. Se conhecer outra forma de fazer isso, eu quero muito saber. (Envolverde)