A nestlé no turbilhão

A Empresa é a lider mundial em águas minerais. E, por isso mesmo, torna-se alvo de autoridades e ongs ecológicas

Por ANA CLARA COSTA

 

AS MARCAS DA NESTLÉ Com a Aquarel, a São Lourenço e a Petrópolis, a empresa tem 1,8% do mercado brasileiro

 

Uma empresa criada no século XIX em um país de poucos recursos hídricos e sem saída para o mar reina absoluta no mercado de água mineral no mundo. Sem alarde, a Nestlé, a gigante do setor alimentício, domina 19% das vendas globais de água envasada. No portfólio da companhia há 72 marcas, presentes em 37 países. Nos EUA, Canadá, Alemanha, França e Itália, é líder de mercado. Essa hegemonia, óbvio, é bem-vinda para qualquer organização. Mas ela também cobra seu preço. Quanto mais a água torna-se um líquido raro e precioso, mais a Nestlé atrai a atenção de autoridades e entidades ligadas à preservação da natureza. Nos EUA, cidadãos dos Estados de Connecticut, Maine, Michigan e Califórnia abriram processos contra a Nestlé Waters alegando a exploração desmedida dos recursos hídricos de suas comunidades. Segundo a ONG norte-americana Sierra Club, os moradores afirmam que a empresa se beneficia enquanto os consumidores pagam mais de mil vezes o custo da água mineral.

Mesmo no Brasil, o movimento já desembarcou. Aqui, a empresa foi acusada de desmineralização da água da fonte Primavera (MG), para a produção da Pure Life, uma de suas marcas. A Nestlé alegou que o procedimento era necessário, pois a água da fonte não era adequada ao envasamento in natura devido ao seu alto teor de ferro. No entanto, a lei brasileira proíbe que as características da água mineral sejam modificadas. Segundo o geólogo Carlos Alberto Lancia, presidente da Associação Brasileira de Indústrias de Água Mineral (Abinam), o caso foi solucionado, já que a Nestlé deixou de comercializar a Pure Life.

“O brasileiro quer tomar um produto natural sem tratamento”, explica. O risco para a Nestlé é que ela se transforme no símbolo do desperdício de água no mundo – semelhante ao papel que o McDonald’s encarna como ícone do antiamericanismo. O especialista em marcas Marcos Machado, da Top Brands, avalia que as chances de isso acontecer são pequenas. No entanto, afirma, as atenções para as questões ambientais devem ser redobradas. “Não se admite erros das empresas globais.

Por isso, qualquer deslize pode alcançar proporções gigantes”, adverte. Em sua defesa, a empresa afirma que diminuiu em 42,7% a utilização de água em seus produtos entre 2001 e 2005, e que explora apenas 0.0009% da água existente no mundo.

Consumo de água envasada no mundo
 

Nada disso, porém, inibe os planos de crescimento da Nestlé Water no Brasil. Aqui sua participação é de apenas 1,8%, segundo o Departamento Nacional de Produção Mineral. A gigante suíça é dona das águas Acquarel, Petrópolis e São Lourenço e comercializa as importadas Perrier, Sanpellegrino e Acqua Panna. Em 2006, o crescimento da empresa no Brasil atingiu 6% em relação ao ano anterior. Para 2007, estima-se que esse número seja 10% maior. Para chegar a esse patamar, a empresa trava uma batalha com as “torneiras”, no caso das camadas mais populares. Entre os clientes mais endinheirados, o rival é o grupo Edson Queiroz (das águas Indaiá e Minalba), que detém 13% do mercado. O terceiro confronto é com os pequenos envasadores que pipocam pelo País e geram uma concorrência pulverizada. São mais de 400. Por último, vem a própria estratégia da multinacional, que veta a comercialização de garrafões de 20 litros, os grandes propulsores do consumo de água mineral no Brasil. Segundo a empresa, mesmo com os obstáculos, o foco no mercado brasileiro não irá mudar: querem agregar valor ao produto e continuar no segmento de garrafas pequenas (até cinco litros). “O consumo per capita ainda é pouco, mas as grandes capitais como São Paulo e Rio possuem um consumo quase igual ao da Argentina”, avalia Edson Ebizawa, diretor-geral da Nestlé Waters Brasil.

fonte: Isto é dinheiro