08/10/2009 - 09h10
EUA é ameaça a acordo climático

Por Henrique Andrade Camargo, do Mercado Ético

As negociações climáticas em Bancoc estão cada vez piores. No começo da semana, 131 países em desenvolvimento manifestaram insatisfação com os países ricos. A acusação era de que as nações mais desenvolvidas estavam tentando sabotar o Protocolo de Kyoto.

O encontro desta quarta-feira (7/10) mostra que o ataque tem sentido. Os Estados Unidos, um dos grandes vilões relacionados ao aquecimento global, mostraram-se mais uma vez contra o acordo que deveria ser a base das negociações em dezembro, na cidade de Copenhague. Além disso, o país também quer atrair outras nações desenvolvidas para estabelecer um novo documento que, ao contrário daquele assinado em Kyoto, forçaria todas as nações a reduzirem suas emissões.

A princípio, o apelo funcionou. A União Européia alinhou-se parcialmente aos EUA, mas defendeu que os melhores elementos do Protocolo de Kyoto sejam mantidos.

Tais revelações não agradaram nada a China e a turma dos países em desenvolvimento. Eles não abrem mão do que foi estabelecido em Kyoto e afirmam que o protocolo é o único compromisso legal de redução de emissões. Isso, para esse grupo, é inegociável.

Justificativas

O representante norte-americano para o clima, Jonathan Pershing, defendeu seu país, dizendo que os EUA já fizeram bastante progresso.

Tendo em vista que até o ano passado não havia compromisso nenhum por parte daquele país, o que ele fala tem fundamento.

Mas o que mais desagradou foi a afirmação de que os Estados Unidos não aceitarão o Protocolo de Kyoto. Seus representantes pedem um acordo completamente novo, cuja adesão seja de todos os países. Pershing justifica que o mundo mudou muito em 20 anos (apesar de ter sido assinado apenas em 1997, as negociações do protocolo começaram em 1988, no Canadá, durante a realização da Conferência de Mudanças Atmosféricas) e que, portanto, as necessidades do mundo mudaram.

A declaração também tem lá sua dose de sentido. Recentemente, a China tornou-se o maior emissor de CO2 do mundo. Mas quando discute-se acordo climático, o que entra em jogo não são apenas as emissões atuais de gases causadores do efeito estufa, mas, também, as históricas. E nesse quesito os países em desenvolvimento ficam bem atrás dos países ricos.

Essas diferenças, como ressalta uma reportagem do jornal inglês Guardian, são uma ameaça para o sucesso das conversações em Bancoc. Enquanto os EUA querem um acordo no qual os países possam estabelecer suas próprias metas de cortes de emissão, assim como a agenda de implementação dessas ações, a maioria pede que sejam mantidas as bases de Kyoto para assegurar que os países ricos sejam obrigados a agir conforme leis internacionais.

Sem um acordo aparente, alguns diplomatas acreditam que a única forma de se chegar a um consenso com os EUA seria assinar um acordo separado, em que o país cortaria suas emissões em um ritmo semelhante ao dos outros países.

Mas advogados disseram que dificilmente o Protocolo de Kyoto será terminado, já que, para isso, seria preciso um consenso entre todas as partes. Além disso, se nenhum compromisso for estabelecido para os países ricos para depois de 2012, isso seria uma quebra de suas próprias obrigações legais.


(Envolverde/Mercado Ético)