Centro Internacional das Águas

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CDE

Brasília, 18 de agosto de 2003

Os engolidores de fontes do Lago de Genebra

Daniel Stern

O comércio com o ouro azul está em alta. Mas é crescente o número dos que acreditam que "a água pertence a todos nós". A seção referente à água do mais recente relatório comercial da Nestlé poder ser lido como se lia outrora o "Pravda" soviético. "Excelente aumento de produção" aqui, "saltos impressionantes nos lucros" ali, e em toda parte "sucessos que dão na vista". Os Stachanows de Vevey estão no comércio de água e conquistam uma vitória atrás da outra. É o que se poderia crer. Dominando 17% do mercado mundial, a multinacional suíça para a produção de alimentos detém a liderança no mercado de água com um movimento de 7,7 bilhões de francos suíços no ano passado. A multinacional possui 77 marcas de água e enche suas garrafas de plástico em 107 lugares espalhados pelo mundo. E todos os especialistas são unânimes: o comércio de água está apenas começando. O salto da Nestlé para o "Clube dos Grandes" da Água não tem nem 12 anos. Naquela época os gerentes da Nestlé compraram a multinacional francesa Perrier, que vende água mineral. "Nós sabíamos que a água se tornaria a matéria-prima mais importante do séc. XXI", diz o porta-voz da firma, Hans- Jörg Renk ao WoZ. "As taxas de crescimento nesse setor são mais altas que em outros." E desde então a Nestlé compra uma fonte atrás da outra. Dessa forma a multinacional também mudou sua estratégia: deixou de ser especialista em água mineral" para tornar-se "jogador global no mercado de água" como se lê num impresso de marketing da Nestlé. Expresso de outra forma: a Nestlé continua vendendo com exclusividade águas minerais como Perrier ou San Pellegrino, ao mesmo tempo, porém, torna-se cada vez mais significativo o lucro advindo da água de mesa cotidiana vendida barato em supermercados de países em desenvolvimento e países em transição [Schwellenländer] como o Brasil, Índia, Paquistão ou China. "Pure Life " é a marca criada para isso. A água captada em diferentes lugares do mundo é primeiramente desmineralizada. Em seguida é adicionada sempre a mesma composição mineral. Em 2002 a água uniformizada foi introduzida no Uzbesquistão, na Turquia e no Egito. É a água da classe média urbana que não quer se sujeitar à água de torneira clorada ou até parcialmente venenosa. Para Renk, o porta-voz da firma, "falta água potável nos centros urbanos do terceiro mundo. Nossa água é um artigo de consumo barato. No entanto estamos conscientes de que nem todos podem comprá-la."

Entrada agressiva. Nestlé começou 1999 com a introdução da Pure Life no Paquistão, um mercado para testes. Segundo um relatório do "Asian Wall Street Journal" os métodos de marketing utilizados foram, no mínimo, agressivos. Uma firma contratada pela Nestlé organizou vários seminários sobre o tema "qualidade da água". Isso dois meses antes do lançamento do produto. Nessa ocasião, representantes oficiais das autoridades do setor de saúde advertiram sobre as centrais municipais de tratamento de água. Além disso, denunciaram diversas águas engarrafadas locais, cuja qualidade seria prejudicial à saúde. Naquele momento não estava claro que a Nestlé estava por trás da organização desses seminários. Então a Nestlé iniciou o lançamento da Pure Life. Seis meses após a introdução do produto, sua parcela no mercado já perfazia mais de 50%. Mas a Nestlé foi posteriormente bastante criticada por seus métodos de marketing [comercialização]. Um porta-voz prometeu melhoras para os próximos lançamentos. Com a Pure Life, a Nestlé tem agora grande participação também no comércio de água no terceiro mundo. Não é bem com aplauso que esse fato é recebido por entidades assistenciais e por organizações político-desenvolvimentistas. A multinacional aproveitou-se desavergonhadamente da falta de água potável limpa, critica Rosmarie Bär, da Cooperativa de Entidades Assistenciais na Suíça. Lara Cataldi, da Declaração de Berna, compara o comércio de água da Nestlé com McDonalds. Só que água é imprescindível à vida e hamburguers não. Franz Gähwiler, da Helvetas, teme que diminua a pressão sobre autoridades locais para que organizem o abastecimento de água de modo a tornar a água limpa acessível a todos. Hans-Jörg Renk objeta que Pure Life representa um desafio para que também as autoridades ofereçam água limpa através do abastecimento de água. Fato é que mais de um bilhão de pessoas não tem acesso a água limpa.

O precário abastecimento com água higienicamente inofensiva é a causa principal da alta taxa de doenças e mortalidade nos países do hemisfério sul. O poder da Nestlé sobre um número crescente de fontes de água gera desconfiança. "A água é um bem público que não pode simplesmente pertencer a uma empresa multinacional", diz Rosmarie Bär. Hans-Jörg Renk contrapõe: "a Nestlé não vende mais que 0,0006% do comércio mundial de água doce". A Nestlé nadatem a ver com centrais de tratamento e o abastecimento através da canalização. Esse ramo da privatização é ocupado por multinacionais como Vivendi e REW. Fontes perdidas no Brasil. Mas a comercialização de água pela Nestlé encontra oposição crescente também nos locias em que a água é captada através de bombeamento. Por exemplo no Brasil: com a compra da firma Perrier, a Nestlé entrou na posse de um Parque de Águas na cidade de São Lourenço. A produção da água mineral foi mantida. Ao mesmo tempo, a Nestlé iniciou em 1998 a construção de uma nova fábrica muito maior. As perfurações devem ter chegado a 150 m. de profundidade para trazer à superfície água de uma outra fonte, cuja água contém muito ferro. Desde 1999 a Nestlé produz a Pure Life com essa água.

A localização da fonte é ideal, entre São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, três grandes centros urbanos. "Há o risco de, com o tempo, todas as fontes aqui serem privatizadas", diz Franklin Frederick, consultor ambiental e integrante de uma iniciativa civil local que luta contra a privatização da água. São Lourenço pertence à região do Circuito das Águas, a mais rica em águas minerais diversificadas em todo o planeta. Três dos quatro Parques de Águas ainda pertencem ao Estado. No séc. XIX foram desenvolvidos ali centros de hidroterapia. Mas a atração desses métodos de cura está em franco retrocesso desde que o Estado suspendeu o apoio a estas iniciativas nos anos 50. "Cada vez menos pessoas estão informadas da força curativa das diferentes fontes", lamenta Frederick. A região depende do turismo relacionado às fontes e corre o risco de empobrecer. Isso também é confirmado por Stefan Rist do Centro para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento da Universidade de Berna. Rist visitou a região no ano passado e aconselha Frederick no desenvolvimeto de conceitos alternativos [conf. abaixo]. Franklin Frederick acusa a Nestlé de ter causado danos ao sistema de fontes local ao intensificar a extração da água por meio de bombas. Uma das fontes já secou, em outras houve mudança na composição mineral. Além disso, a Nestlé desdenha uma lei brasileira que proíbe a desmineralização de águas minerais.

Por esse motivo está correndo um processo contra a Nestlé, o que é confirmado por Hans-Jörg Renk. A Nestlé, entretanto, é da opinião que a água em questão não é água mineral por ser excessivamente turva. Franklin Frederick permaneceu na Suíça o mês passado [maio] para aumentar a pressão contra a Nestlé. "Se nós lutarmos apenas no Brasil, não temos chance. Os grandes jornais do meu país não trazem notícias sobre nós, certamente por medo de perder um anunciante de peso." Frederick teme que, com todo o seu poder, a Nestlé ainda protele por anos o processo. Nem o governo central quer ficar de mal com a multinacional. Afinal de contas, o presidente Luís Inácio Lula da Silva assinou no último Fórum Econômico de Davos um acordo importante com o Chefe da Nestlé, Peter Brabeck. A Nestlé quer apoiar de forma ativa a luta de Lula contra a fome. A Nestlé recuperou sua apresentação [seu out-fit, sua imagem]: agora ela pertence ao clube das multinacionais que, com o "Global Compact" da ONU, se comprometeram a normas ecológicas e sociais mínimas.

Oposição nos EUA. O caso do Brasil parece quase não incomodar a Nestlé até agora. Mas os estrategistas do Lago de Genebra deveriam estar mais preocupados com a oposição massiva com que estão sendo confrontados também no país-mãe da privatização. Justo nos EUA cresce a crítica contra o comércio de água da Nestlé - num país em que o aumento anual do consumo de água atinge os 10%. A Nestlé domina o mercado também aqui e se impõe contra firmas como a Pepsi e a Coca-Cola, que querem participar do mercado com água de torneira enriquecida [preparada]. "Nos incomoda que a Nestlé alugue terras, extraia gratuitamente água por bombeamento e ainda obtenha vantagens fiscais; diz Holly Wren, ativista da Aliança pela Água Doce do Estado de Michigan. De lá vem a Mountain Water da Nestlé, vendida em nove estados. "Essa água pertence a todos", diz Wren. Grupos de base organizam passeatas e escrevem cartas de protesto para pressionar os políticos. Exigem que a governadora democrática do Michigan, Jennifer Granholm revogue a permissão de funcionamento da Nestlé. Também aqui teme-se que em pouco tempo outras multinacionais resolvam adquirir água local [reservatórios de água locais]. Um grupo que se denomina Cidadãos do Michigan para a Conservação da Água tenta um processo contra a Nestlé. A água que é engarrafada vai faltar no Lago Michigan, argumenta a iniciativa civil.

Esse lago pertence aos cinco Grandes Lagos na região fronteiriça entre EUA e Canadá e compõe o maior reservatório de água doce do mundo.

Em pelo menos mais cinco estados a Nestlé está sendo confrontada com a oposição de iniciativas civis. No Wisconsin os agricultores acusam a firma de baixar o lençol freático através das estações de bombas, o que causa o secamento das fontes. E na Flórida um grupo denominado Salvem Nossas Fontes se defende contra a sede insaciável da Nestlé. De Vevey ouve-se, ao contrário, que só grupos muito pequenos estariam se opondo e que as acusações não teriam sustentação. Mas o menosprezo estrategicamente encenado não é verossímil.

Na central da multinacional é bem conhecido o poder das pequenas iniciativas civis: há dois anos a Nestlé sofreu uma derrota sensível justo às portas de casa. Na época, a firma tentou privatizar a fonte de água potável de Bevaix, no cantão Neucahtel. A água ali extraída seria transformada na "Aquarel", a correlata européia da Pure Life. Aquarel pode ser adquirida nos supermercados de 9 países europeus. Quando o grupo ATTAC tornou pública a privatização iminente, "choveram" 120 protestos de todo o cantão. A Nestlé teve de retirar seu requerimento.

A Universidade Livre das Águas Franklin Frederick planeja a fundação de uma Universidade Livre das Águas na região do Circuito das Águas. Para tanto recebe apoio da Universidade de Berna (Centro de Desenvolvimento e Meio-Ambiente) e da Escola Superior de Engenharia da Madeira, de Biel. Objetivo da universidade é a recuperação do saber a respeito da cura através da água. Isso possibilitará um desenvolvimento duradouro da região. O projeto deve também impedir que outras fontes da região sejam privatizadas. Franklin Frederick participará do Fórum Social Suíço em Freiburg de 19 a 21 de setembro, em um workshop sobre a privatização da água.