a fábula & a farsa

(ou de como um ministério deu uma rasteira em outro  ministério para proteger a indústria de águas minerais)
 

 

 

Era uma vez um Código de Águas Minerais de 1945, que até hoje está em vigência, ou seja, a lei já é vovozinha, mas ainda tem fogo no pavio. Já no terceiro parágrafo do artigo 1° essa lei cita a heroína da nossa história, a Comissão Permanente de Crenologia, a partir de agora chamada carinhosamente de CPC:

§ 3º - A ação medicamentosa [...] deverá ser comprovada no local, mediante observações repetidas, estatísticas completas, documentos de ordem clínica e de laboratório, a cargo de médicos crenologistas, sujeitas as observações à fiscalização e aprovação da Comissão Permanente de Crenologia definida no Art. 2° desta Lei.

Antes que o leitor se assuste com as palavras, como se assustou Chapeuzinho Vermelho à primeira visão do Lobo Mau, esclareça-se que não adianta ir aos dicionários Aurélio e Houaiss. Ambos citam a raiz cren(o), do grego fonte, e as palavras associadas (crenologia, crenologista, etc.), mas, numa falha singular comum, não incluem essas palavras em verbetes. A solução é ir ao verbete crenoterapia: tratamento pelas águas minerais (Aurélio) e utilização medicinal de águas minerais como terapia (Houaiss). Ou seja, médico crenologista é o especialista em tratamento da saúde com o uso de águas minerais.

Quando vovozinha era moça, as estâncias hidrominerais e seus balneários contavam com médicos crenologistas, e as águas minerais eram consideradas medicamento e remédio para doenças variadas, e não refrigerante. (Preste atenção o leitor a esse fato, que será retomado mais adiante.). Muitas cidades viveram e vivem do turismo trazido pelas águas, havendo mesmo uma, a sul-mineira São Lourenço, que foi fundada, pouco antes do século XX, a partir de um empreendimento comercial montado para explorar suas miraculosas águas curativas cuja fama espalhara-se pelo país e o mundo. (Leitor: São Lourenço é o centro da nossa história.É lá que vivem ou fazem turismo alguns personagens imortais, como o Pinóquio, a Carochinha e o Tio Patinha$.)

A Rainha das Águas – A CPC durante muito tempo concorreu com Iemanjá e Iara pelo título de Rainha das Águas. A celeuma só serenou quando o sábio Sapo Cururu decretou que Iemanjá é a Rainha das Águas do Mar, Iara é a Rainha das Águas Doces, e a CPC é a Rainha das Águas Minerais. Mas é tão importante que seus membros são nomeados pelo presidente da República. Assim:

Art. 2° - Para colaborar no fiel cumprimento desta Lei fica criada a Comissão Permanente de Crenologia, diretamente subordinada ao Ministro das Minas e Energia.

§ 1º - A Comissão Permanente de Crenologia terá a Presidência do Diretor-Geral do Departamento Nacional da Produção Mineral e se comporá de quatro especialistas no assunto, de livre escolha do Presidente da República; um dos membros será escolhido entre o pessoal do órgão técnico especializado do DNPM.

É mesmo uma rainha coroada: nomeada pelo presidente, sob autoridade do ministro de Minas e Energia do país mais rico em minas e potencial de energia. Mas a rainha sofreu a mesma degenerescência que atingiu suas congêneres reais em todo o mundo: foi ficando velha, fora de moda, feito a rainha da Rússia, e chegou a tal ponto de triste abandono que terminou com a vassoura na mão, companheira da Gata Borralheira. Sua ciência, a crenologia, antes plena de prestígio e ensinada em universidades, aos poucos desapareceu do currículo. Os velhos médicos crenologistas foram sendo substituídos por médicos “especialistas” em receitar remédios químicos de multinacionais e monitorar aparelhos eletrônicos.

_”E a velha ciência, minha netinha, foi finalmente esquecida junto com outras velharias: a galocha, o chapéu, os suspensórios, a escarradeira, o gumex, o Trio Maravilhoso Regina, as Moças do Sabonete Araxá, a alimentação natural, o respeito aos mais velhos, a lisura nos procedimentos, velhas manias antigas.”

_”Mas, vovó, se as águas curavam antes, por que é que não curam mais?”

_”Curam, sim, minha netinha, mas ninguém dá mais importância a elas. Tanto não dão que uma das mais poderosas corporações multinacionais do mundo, a Nestlé, lá no Parque das Águas de São Lourenço, passou anos retirando todos os minerais de uma das águas mais ricas do planeta para fabricar uma água horrível cheia de produtos químicos que eles vendem como se fosse a poção mágica. É muito feio o que eles fazem, minha netinha, porque a lei manda e diz que ninguém pode mexer nas águas minerais, elas são sagradas porque curam doenças.”

_ “Vovó, se é proibido, como é que eles fazem isso?”

_”Ah!, queridinha, é que há um tal de Departamento Nacional de Produção Mineral, que na verdade devia se chamar de Proteção Mineral, que vive protegendo essas corporações e prejudicando o país.”

_”Vovó, o que é essa tal de corporações multinacionais?”

_”Calma, minha netinha, é uma coisa muito pavorosa, e você ainda não tem idade para essas coisas... Vamos continuar a nossa história.”

As qualidades ocultas – Mas o Código de Águas Minerais não libera a publicação das virtudes das águas minerais nos rótulos, a menos que haja autorização expressa da CPC. O terceiro parágrafo do artigo 29 é explícito:

§ 3º - Nenhuma designação relativa às características ou propriedade (sic) terapêuticas das fontes podem constar dos rótulos, a menos que seja autorizada pela Comissão Permanente de Crenologia.

Aqui começa a nossa história atual. E a CPC vai ganhar companhias. A Abinam, figurinha matreira feito a Raposa das uvas, e que se chama na verdade Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais, entra em cena pela mão do seu presidente, um gorducho que lembra o Mestre da Branca de Neve. O tal Departamento Nacional de Proteção Mineral, o DNPM, é uma casa onde moram muitas personagens. Uma delas, por exemplo,

_“... é um procurador que um dia falsificou uma declaração e disse que a água mineral riquíssima que a Nestlé desmineralizava para fabricar sua horrível água artificial não era mineral. Com base nessa declaração falsa, a Anvisa rapidamente autorizou a venda da água horrível. O nariz dele cresceu mais que o do Pinóquio, minha netinha. Um dia uma colega dele, a Mônica, que é honesta...”

_”Vó, é a Mônica do Cebolinha? E o que é Anvisa?”

_”Anvisa é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que cuida de alimentos. E a Mônica, querida, é uma procuradora federal, Mônica Almeida Horta. Ela foi lá e abriu as gavetas e armários e viu muita mentira enorme. Aí ela escreveu um relatório dizendo que tinha de haver inquéritos para punir aqueles mentirosos, até diretores estavam metidos nessa história escabrosa.”

_”E aí eles foram presos, vó?”

_”Qui! Nunquinha! Nunca houve inquérito nem nada. É sempre assim neste país, minha netinha querida, entra governo, sai governo, e a festa continua. E essa festa que eu estou contando hoje está até mais animada do que no governo que saiu, daquele janota metido a lorde inglês.”

_”Vó, que história esquisita, ta me dando é fome. Vamos lanchar?”

A grande sacada – Então algum Gênio da Garrafa de água mineral percebeu a grande sacada. Se a água mineral é remédio, então por que não colocar nos rótulos as indicações terapêuticas? E por que não passar a considerar, mais tarde, as águas industriais com sais químicos também como águas de propriedades terapêuticas? E por que não subir o preço das águas, já que água custa muito menos que remédio?

_”Vovó, de onde você tirou isso tudo?”

_”Das palavras deles mesmos, queridinha.”

A jornalista Lilian Witte Fibe, no site Uol News que assina, fez uma reportagem, em 24 de dezembro de 2004,  sobre isso tudo, e colocou no ar um vídeo de 6 minutos. Segue-se um trecho da reportagem, que tem muito em comum com os releases da Abinam:

Segundo a assessoria de imprensa do ministério, a proposta terá de passar pela comissão permanente de crenologia. Essa comissão será formada por representantes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), da Sociedade Brasileira de Termalismo, do DNPM e da Abinam.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda precisa nomear os membros de cada entidade para formar a comissão.

Segundo o presidente da Abinam, as mudanças nos rótulos podem trazer alterações nos preços das águas mineiras.”

_”Mineiras, vovó? Não é minerais?”

_”Devia ser, mas eles erram muito. E talvez tenha sido ato falho: mineiras, São Lourenço, Nestlé... A portaria do ministro que recriou a CPC chama duas vezes as estâncias de instâncias hidrominerais. Há muita burrice, netinha. Um release da Abinam abre com a seguinte frase em destaque: ‘É preciso dar ao consumidor uma verdadeira razão para ele beber sua água’. Mas isso já existe há séculos, chama-se sede, vontade de beber água. Eles falam muita bobagem. Mas olhe só o que li no saite dessa Abinam:

“A indústria de bebidas em geral tem como tendência criar produtos funcionais, enriquecidos artificialmente, na busca de uma solução o mais semelhante possível à água mineral, que é naturalmente mineralizada e atende completamente às exigências de saúde e bem-estar do consumidor moderno. Com a instalação da Comissão de Crenologia, esses atributos poderão ser amplamente divulgados pela indústria de águas minerais, em apoio ao marketing das suas marcas.

_”Vó, e esse negócio de água artificial se apresentar como medicinal também? De onde você tirou?”

_”Olha, minha netinha, já no comecinho do tal vídeo aparecem águas minerais, e a tal água artificial da Nestlé está lá entre as águas minerais. O que você acha? E essa conversa aí de cima, do gorducho? Ele disse que eles contam com a CPC para validar os tais “atributos” das águas químicas. Sabe, querida, esse povo não tem costume de esconder o jogo, eles falam abertamente, porque sabem que mandam. E o negócio é alto, ele deu uma entrevista para uma revista semanal e disse que agora é hora de exportar, e que a perspectiva é de chegar a 800 milhões de dólares. É um mar de dinheiro. Para isso, as águas têm de receber um selo de qualidade, e a organização que dá esse selo já está instalada no Brasil, e seu presidente foi da Abinam... Você percebe, netinha, tudo tem de ser amarrado, e a CPC é um elo fundamental nessa corrente”

_”Peraí, vó, não corra, vamos voltar.O vídeo não é independente?”

_”Olha, queridinha, essas coisas são muito complicadas, um dia você vai entender tudinho, mas vai ter de estudar muito. Aliás, onde está o seu último boletim?”

O Bicho Papão – No entanto, como em toda historinha infantil ocidental, o terror sempre se manifesta. Alguns estudiosos já analisaram os contos de fadas e quetais e descobriram facetas que fariam Freud e Jung criar novas teorias. Então, como esta historinha também é ocidental [afinal, trata-se de uma colônia sul-americana serva de um país europeu de início; depois de outro, aquele da ilha velha; e agora de todos, com predominância de um também americano que anda competindo pelo título de o maior assassino da história] e deve ter todas as personagens de uma história exemplar, não poderia faltar o Bicho Papão, o terror das criancinhas. E terror também da turma organizada em torno da proteção às empresas de água mineral.

_”O que houve, vovozinha? Por que você se calou tão de repente?

_”É, minha netinha... É que o Bicho Papão dessa história não era o Bicho Papão, era o herói salvador. Sabe, um pouco antes de o diretor adjunto João César, do DNPM, anunciar num seminário da Nestlé que a CPC iria logo existir, o Ministério da Saúde já havia tomado a iniciativa de propor uma comissão de crenologia com a participação de vários ministérios e...”

_”Peraí, vó. Vá mais devagar. Quem é João César? Que história de seminário é esta? O que o Ministério da Saúde tem a ver com isso, se a lei diz que a CPC depende e obedece ao ministro das tais minas e energias? E a Nestlé, entra nisso de que jeito? Ih! Vó!, acho que você está ficando meio gagazinha, hein?

_” Não... Não... Ó, deixe eu contar devagar. O Conselho Nacional de Saúde, que aconselha o ministro nos assuntos mais tchans...”

_”Tchans? Tá moderninha, hein, vó?...”

_” Tá bom, vamos devagar. Primeiro, a Nestlé organizou um seminário dia 4 de dezembro de 2004 em São Lourenço sobre crenologia. Era para ser um seminário nacional aberto, conforme a promessa assinada pela empresa. Veja só o compromisso que a empresa assumiu:

“Organizar, em conjunto com o DNPM e demais órgãos públicos municipais, estaduais e federais, um seminário, congresso ou workshop sobre o uso terapêutico das águas minerais no decorrer de 2004.”

Mas você sabe que essas promessas logo se esquecem. Então, foi um seminário fechado, secreto, com seguranças na porta. Uma amiga minha tentou entrar e não conseguiu. E olhe que ela é do Conselho do Meio Ambiente da cidade. E foi nesse seminário que o tal João César anunciou a futura CPC.

_”Vovô falou que você guardou essa notícia. Cadê?”

_”Olhe, está aqui, tirei do saite da tal Abinam”:

Se tudo ocorrer dentro dos prazos previstos, a Comissão de Crenologia do Departamento Nacional de Produção Mineral deverá estar instalada até fevereiro de 2005 e em condições de iniciar seus trabalhos. A notícia foi antecipada pelo diretor geral adjunto do DNPM, João Cesar Pinheiro, durante o workshop sobre Crenologia realizado em São Lourenço no dia 4 de dezembro último.

Segundo ele, o documento que restabelece a Comissão, incluindo os nomes dos seus componentes, já está finalizado e aguardava apenas a assinatura da ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef.”

_”Vó, como podem fazer um seminário de crenologia sem a presença do Ministério da Saúde? Não é estranho? E me diga uma coisa: esse tal João César é daquelas personagens iguais ao tal procurador falsificador de que você falou logo no começo? Ele é do mal, vó?

_”Não, querida netinha, este é diferente, mais cabuloso, mais perigoso. É daqueles que têm poder e não se arriscam nem fazem bobagens públicas. Quer ver um exemplo? Em julho de 2004 houve uma audiência na Câmara Federal sobre esse escândalo da Nestlé. Eram cinco depoentes: nosso representante; uma mocinha da Anvisa; o gordo italiano da Nestlé; um advogado muito gente fina, o procurador Nardy, de Minas; e esse tal João Cesar também. Pois não é que ele fez um longo depoimento técnico, explicou como funcionava o DNPM, reclamou que tem pouco dinheiro, chegou a insinuar que uma “ajudinha” das empresas seria bem-vinda? Mas em nenhum momento tocou no assunto da audiência. Sobrou pra o representante do MACAM descascar a cebola em cima daquele povo sem-vergonha. Além do procurador Nardy, que disse com todas as letras que tudo aquilo que acontecia no Parque em São Lourenço era ilegal. Interessante o tal João César, né? Pois foi ele quem foi anunciar a futura CPC numa reunião fechada da Nestlé em São Lourenço.”

_”Estou entendendo, vó. Na mesma cidade em que essa turma da proteção mineral faz sete anos se omite e deixa um crime ambiental acontecer...”

_”Um só, não; vários, netinha!”

_”...na casa da empresa que viola leis há sete anos, e ele lá, anunciando a tal CPC. Mas, independente dessa sem-vergonhada, a CPC é uma boa, né, não, vó?”

_”Pode até ser, mas depende de quem manda.”

_”Feito com Alice no País dos Espelhos, né, vó? Eu li e gostei muito de tudo, mas o que eu mais gostei foi da Alice discutir com a Rainha e dizer: Eu tenho razão!, e a Rainha dar uma risada e dizer: Mas quem manda sou eu!

O Bicho Babão – Pior que o Bicho Papão é o Bicho Babão. Houve uma reunião, em 7 de outubro de 2004, dois meses antes do anúncio da CPC na reunião fechada da Nestlé, do Conselho Nacional de Saúde, presidido pelo ministro. Essa reunião do CNS contou [para tristeza dos gorduchos da Abinam, dos agentes da proteção,de alguns “cientistas orgânicos” e outros que ainda virão à luz] com a presença de um representante do Movimento Amigos do Circuito das Águas Mineiro – MACAM, e após uma exposição esclarecedora do nosso representante, resolveu-se em deliberação coletiva e oficial o seguinte:

“Deliberar pela reativação da Comissão Nacional de Crenologia, de caráter interinstitucional, constituída por representantes dos Ministérios da Saúde, das Minas e Energia, das Cidades, do Conselho Nacional de Saúde e de outros órgãos afins.”

Além disso, deliberou-se também, à vista do relato dos escândalos e ilegalidades da Nestlé em São Lourenço, pedir ao Ministério da Saúde que se manifestasse a respeito. Logo após o ministro, numa portaria, declarava que se resolvia:

“Manifestar posição contrária à política de apropriação e exploração indevida, por empresas privadas, dos mananciais das águas minerais brasileiras.”

_”Vovó, acho que estou começando a entender. O Ministério da Saúde resolveu reativar a CPC, mas com um jeitão científico. Além disso, assumiu posição contrária à posse privada das águas minerais. Uma ameaça a essas tais corporações que a senhora citou, né? E aí o pessoal da proteção mineral mais os gorduchos da Abinam e as nestlês sentiram que podiam perder o controle da bola... O Ministério da Saúde é o Bicho Papão?”

_”Ei! Espera aí, menina, que linguagem de menino é essa? O que você andou lendo? Está falando igual à bruxa da Bela Adormecida!”

_”Ah! Vó! Deixa eu falar! Ó, vó: aí esse pessoal resolveu correr pra não perder o controle, né, vó? Ta na cara, vó!”

_”Ta bom, minha querida netinha, estou vendo que hoje até as crianças estão sabendo das coisas. Foi assim mesmo. Só que havia uns obstáculos...”

_”Vó! Você falou no começo dessa fábula contada que era o presidente da República que nomeava os membros da CPC. E então como é que esse tal João César falou que os nomes já estavam prontos e que só faltava a assinatura da ministra? Isso em 4 de dezembro. E como é que em 24 de dezembro,quase um mês depois, o gorducho da Abinam falava de novo que o presidente iria nomear os membros? Não tá esquisito, vó?”

_”É tudo muito esquisito, queridinha. Eu acho que eles tiveram de correr e não tiveram tempo de combinar tudo direitinho. Ressuscitaram um decreto de setembro de 1993 que diz que o presidente delega ao ministro a prerrogativa de nomear os membros da CPC. Mas a CPC acabou nos anos 1950 e só voltou agora. Que decreto de doze anos atrás é esse, quando o assunto estava na geladeira? O pior é que a lei diz que os membros da tal CPC devem ser ‘quatro especialistas’ no assunto, além do presidente que é o chefe da proteção mineral.”

_”E não são especialistas? Quem são os membros da CPC dessa turma, vó?”

A “Rainha” da Águas Minerais – O ministro interino, Maurício Tolmasquin (não foi Dilma Roussef; esperaram sua ausência, e divulgaram a portaria às vésperas do Carnaval: assim é melhor, ninguém percebe nada), baixou portaria designando os 4 membros da CPC da turma:

“Art. 1o Designar para compor a Comissão Permanente de Crenologia, instituída pelo art. 2o do Decreto-lei no 7.841, de 8 de agosto de 1945, os seguintes membros:

I - Departamento Nacional de Produção Mineral - DNPM:

Carlos Magno Bezerra Cortez (Titular);

Gilberto Ruy Derze (Suplente);

II - Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA:

Cleber Ferreira dos Santos (Titular);

Ana Virgínia de Almeida Figueiredo (Suplente);

III - Sociedade Brasileira de Termalismo - SBT:

Marcos Untura Filho (Titular);

Enzo Luiz Nico Junior (Suplente);

IV - Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais - ABINAM:

Carlos Alberto Lancia (Titular); e

Petra Sanchez Sanchez (Suplente).”

_”Vóvó, mas e os tais ‘quatro especialistas’? Não é uma comissão científica? Você não disse que a crenologia era ensinada em universidades? E a lei fala de 1 presidente e mais 4 especialistas, aí só tem 3 além dele!”

_” Queridinha, não faça perguntas incômodas, por favor. Eles são especialistas em serem especialistas em tudo e qualquer coisa, entendeu? Principalmente quando se trata do interesse da indústria de águas minerais. O único especialista é o tal Untura da SBT, mas o substituto dele é o diretor do DNPM de São Paulo.”

_”Mas, vovó, e os outros ministérios, e essa tal de sociedade civil de que a senhora vive falando, e aquele história do Ministério da Saúde? Se a crenologia é a ciência da saúde pelas águas minerais, então não devia estar na lista um especialista do Ministério da Saúde? E também daqueles outros ministérios previstos? Desde quando a Abinam entende de saúde? Ela entende, e muito bem, é de ganhar dinheiro com água mineral! Acho que o Bicho Papão virou Bicho Babão, rá rá!”

_”Benzinho, acho que está na hora de dormir...”.

_”Ah! Não, vovó, quero ir até o fim. Pelo menos um cientista tem aí nesse meio, esse doutor Untura... Eu li que ele é diretor científico da Sociedade Brasileira de Termalismo. Chique, né? Vovó, ficou só uma dúvida do que eu ouvi e li: o que que é ‘intelectual orgânico’?”

_”É um tipo de intelectual que trabalha para o poder, e que às vezes fala uma coisa para a comunidade e faz outra para o poder. Quer ver? O doutor Untura disse o seguinte nessa reunião da Comissão Nacional de Saúde que resolveu reativar a CPC, essa que eu contei; pense fundo nas palavras dele:”

“Ressaltou que, em 2003, foi realizada reunião, com a finalidade de rever os dispositivos legais para a reativação da Comissão de Crenologia, contudo, passado um ano, nada havia sido feito nesse sentido.  Desse modo, reafirmou a importância de mobilização do CNS no sentido de reativar a Comissão, no âmbito do Ministério da Saúde.”

_”Ah! Entendi, vó: ele disse em 7 de outubro isso aí, que devia ser no Ministério da Saúde, e já em 4 de dezembro o tal João César, o da proteção, disse que os nomes já estavam definidos, e um dos quatro nomes era o dele, e não tinha nada de Ministério da Saúde nem qualquer outro ministério, e ele não disse nem que sim nem que não...”

_”Não, netinha inteligentíssima, ele disse sim, mas para o poder, e não, para o Ministério da Saúde e para a comunidade e para si mesmo e sua coerência de propósitos. Estava lá nesse tal seminário fechado com essa empresa aética. O representante da sociedade dele na reunião foi o diretor do DNPM de São Paulo.

_”Eles que se entendam netinha! Os intelectuais orgânicos se escondem atrás de reputações e currículos. Podem até ser competentes. Mas, a cada dia, é preciso registrar o que eles dizem e saber o que eles têm a dizer. Porque eles são cientistas, mas seu comportamento sempre tem dimensões políticas, entendeu? Pelo que eu contei, netinha, muita gente vai ter de explicar muita coisa, não é?”

_”Vovó, ta complicando, dimensão política... Mas eu estou entendendo uma coisa: um assunto tão importante, tão vasto, e eles vão se fechar lá com seu grupinho para passar uma rasteira em outro ministério e não largar a rapadura, né? Tem mais história igual a esta? Gostei tanto...”

_”Netinha queridíssima, venha aqui, deixe eu te dar um beijo. E cuide da sua linguagem, menina bonita não fala de certa maneira. Tem, sim, mas essas histórias a gente tem de contar devagar.”

_”Mas por quê, vovó? Se eu gosto tanto...?”

_”É, netinha, mas tem muita gente que não gosta, uns porque querem ficar na sombra, e outros porque têm raiva de coisa errada. E, agora, já para a caminha! Um, dois e...”

Finale - Para a sapiência do leitor e sua percepção da ausência de muita gente que devia estar presente se o jogo fosse aberto: a lista dos participantes da reunião fechada em São Lourenço em que foi articulada, firmada e anunciada a CPC é a seguinte, conforme release da Abinam:

“Realizado no Hotel Primus de São Lourenço, o encontro contou com palestras de vários especialistas em águas envasadas e crenologia, além de profissionais que apóiam as causas do setor. Além do presidente da Abinam, Carlos Alberto Lancia, participaram do encontro como expositores e debatedores o diretor geral adjunto do DNPM, João Cesar Pinheiro; o diretor de Assuntos Corporativos da Nestlé Brasil, Carlos Faccina; Enzo Luís Nico Júnior, chefe do Distrito Regional do DNPM-SP, representando o presidente da Sociedade Brasileira de Termalismo; Felício Benatti, professor de pós-graduação da PUC-SP; Marcos Untura Filho, diretor científico da Sociedade Brasileira de Termalismo; Florence Constant, diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Nutricional da Nestlé Waters, França; Petra Sanchez, assessora Científica da Abinam; Ricardo Signorelli, diretor da Abinam; Emanuel Martins Simões Coelho, chefe do Distrito Regional do DNPM-MG; Andrei Rakovitsch, diretor-presidente da Nestlé Waters Brasil; deputado federal Odair Cunha; Marcelo Tunes, representando o Instituto Brasileiro de Mineração; Walter José Lessa, vice-prefeito de São Lourenço e Carlos Magno Cortez, DNPM - Natal.”

Fabulinha - O deputado federal petista Odair Cunha, único político presente na reunião , foi eleito por comunidades sul-mineiras e há dois anos se empenha em defender os interesses da Nestlé. Age como se não houvessem outras eleições no seu futuro. Se continuar assim, vai ganhar uma fábula. (Por enquanto, fica só com a fabulinha.) Consta que é o presidente de um tal Grupo Parlamentar de Defesa das Águas. Só pode ser piada à brasileira.

Coda: Há esperança: recentemente, alguns membros do Ministério Público resolveram entrar de vez nessa história nebulosa de nestlês e proteções, e muitos outros vêm há tempos acompanhando e documentando tudo em seu território e seu campo de ação. Além disso, existe o Parecer da auditoria de novembro de 2003. Os que ainda vivem à sombra da impunidade que aguardem.

Como dizia Macunaíma: Deus é grande, mas o mato é maior. Um dia nossa floresta coletiva e fraterna, esta que tem Lobisomem e Boitatá, engole essa gente. E não sobra nem o nome pro jornal.

Movimento Amigos do Circuito das Águas Mineiro – MACAM

(Visite nosso site  www.circuitodasaguas.org  e veja como essa fábula é só uma poeirinha perto do lamaçal.)