ÁGUA  NO SÉCULO XXI: CRISE OU ESCASSEZ?

* Aécio Rodrigues de Melo

Prof. Assistente do Departamento de Geografia da FAFICOP

aeciomelo@bol.com.br

 

1-     Características Gerais

Senhores da Terra: Rockefeller, Ford, Bill Gattes, Citibank, etc.

Senhores da Água: Vivendi, Saur-Bouygues, Danone  (França),  Nestlé (Suiça), Bechtel (EUA), United Utilities (RU).

A água potável não é acessível  para um grande e crescente número de pessoas e  sua poluição é cada vez maior, tanto  da água da superfície quanto da subterrânea

Vive-se sem internet, petróleo, conta bancária, sem investimento, mas não sem água.

É preciso reconhecer  a água como um patrimônio comum da humanidade, como uma fonte de vida e um recurso fundamental para o desenvolvimento sustentável do ecossistema Terra.

Segundo o PNUD, 15 milhões de seres humanos morrem anualmente por falta de água.

Em 1998 foram registrados os seguintes fenômenos:

- seca em Papua Nova Guiné e alguns meses depois enchentes devastadoras;

- em Bangladesh 30 milhões de vítimas de enchentes;

- em Carachi (Paquistão) 8 milhões de pessoas sem água, no delta do Indo;

- 1,4 bilhões de pessoas no mundo sem acesso a água potável;

- 02 bilhões de pessoas sem sistema sanitário.

Para 2025 a previsão é que a metade da população total do planeta esteja nestas condições.

A IBM, Departamento de Essonne, usa água subterrânea da bacia do Sena-Normandia (2,7 milhões de metros cúbicos/água/ano), com permissão especial para usar água pura.

Com o pretexto de progresso tecnológico ou atração de empregos o imperativo da competitividade vence todas as partidas, também nas questões relacionadas com água.

Em Manila (Filipinas) com 10 milhões de habitantes, dos quais 40% sem água e mais 50% da água é desperdiçada em vazamentos.

O gerenciamento e a utilização da água em cidades importantes de países subdesenvolvidos estão sendo controladas por empresas privadas: México, Hanói, Buenos Aires, Casablanca, Moscou.

Na porção leste de Manila, parte rica da cidade, onde se localiza o distrito comercial, o preço da água custa 07 centavos de dólar por metro cúbico, enquanto para o restante da cidade custa 14 centavos de dólar o metro cúbico.

Na Califórnia,  há carência de água, o rio Colorado não é mais tributário do Pacífico; o Lago Owen está poluído, enquanto existem 560.000 piscinas particulares com águas da Serra Nevada.

No sudeste dos EUA consome-se em média, 3.100 litros de água per capita/dia; enquanto o consumo médio do país é de 700 litros/dia;  na Itália 350, na Bélgica 260; nos países de renda média 150 e no Sahel 30 litros de água/dia.

Quanto a água mineral,  esta é de 500 a 1000 vezes mais cara  do que a água de torneira.

Na Índia 70% da população sem saneamento.

De 30 a 40% da população das cidades: México, Carachi, Manila, Jacarta, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Casablanca, Delhi, Hanói, Cairo, Xangai e Seul, não têm acesso à água potável.

A diarréia causada pela água poluída afeta 500 milhões de pessoas/ano.

Em 1977 – 1ª Conferência mundial sobre água (Mar Del Plata).

A água é a questão mais importante da agenda política internacional.

A ONU decretou a década de 80 como a Década Internacional da Água Potável e  do Saneamento e o objetivo era:

- que até o ano 2000 todo mundo tivesse acesso a água potável.

Em 1991 era criada a Comissão Mundial da Água, com o objetivo de elaborar e implementar uma visão de longo prazo para  água, vida e o meio ambiente mundiais no século XXI.

Em linhas gerais, ela criava uma política mundial da água para garantir que todos tivessem acesso à água, e que:

1- a água é um recurso escasso, um bem vital, econômico e social. E ainda deve ser submetida às leis do mercado  e aberta à livre competição;

2- o gerenciamento racional e eficiente dos recursos hídricos requer cultura e práticas  econômicas rigorosas. Os provedores dos serviços de água, sejam eles públicos ou privados, devem estabelecer metas de desempenho que deverão ser medidas pelo critério da satisfação do consumidor;

3- a água é um fator primário para a saúde. Uma política racional e eficiente para a água deve ter como objetivo conseguir manter e melhorar sua qualidade.

A ECO Rio 92 estabeleceu o dia 22 de março como o dia mundial da água.

Em 1996 foi fundado o Conselho Mundial da Água, cujo objetivo era:

- desenvolver, propor e promover uma visão mundial comum das questões relacionadas com a água.

Em 1997 - Conferência da UNESCO: “Água uma crise que se agiganta”.

O Banco Mundial reafirma a necessidade de um “gerenciamento integrado e sustentável dos recursos hídricos”.

    Razões para explicar ou justificar a crise da água:

- 1,4 bilhões de pessoas sem acesso a água potável;

- distribuição desigual dos recursos hídricos;

- desperdício e mau gerenciamento dos recursos hídricos;

-  poluição e contaminação;

-  crescimento demográfico, sobretudo no 3º mundo.

Cerca de 60% dos recursos hídricos estão situados em 09 países, incluindo: Brasil, Rússia, China, Canadá, Indonésia, EUA, África do Sul, Nova Zelândia, Austrália.

50%  da água potável tratada é desperdiçada por vazamentos no sistema de distribuição. Nos países europeus, por exemplo, a tubulação é anterior a 2ª guerra.

Quanto à poluição e à contaminação da água, nota-se:

1- uso maciço de produtos químicos e metais pesados (nitratos, chumbo, mercúrio, arsênico);

2- incapacidade de tratar resíduos domésticos e industriais, os quais estão sendo lançados diretamente nos rios;

3- exploração maciça da água subterrânea;

4- falta de sistema de esgoto para 50% da população mundial;

5- degradação do solo (desflorestamento, erosão, desertificação e assoreamento);

6- enchentes e inundações.

Quanto ao crescimento populacional, prevê-se para 2025, 08 bilhões de habitantes, dos quais mais de 02 bilhões nas megalópoles da megapobreza.

Hoje 20% dos mais ricos consomem 86% da água.

Para fabricar um carro é preciso 400.000 litros de água.

Os conflitos advindos  do uso da água não são decorrentes somente da abundância ou da escassez, mas sobretudo de grupos sócio-econômicos que têm poder desigual para dirigir e controlar os modos de regulação e de distribuição dos recursos.

A água é uma fonte de poder, de riqueza e de dominação. “Water is power”.

2- Os Senhores da Água

O acesso a água quase sempre envolveu desigualdade.

A revolução da água: é a busca de igualdade,  de justiça e solidariedade.

A palavra rival (rivalidade) vem do latim rivus (corrente ou riacho); um rival, portanto, é alguém que da margem oposta, usa a mesma fonte de água, daí a idéia de perigo, ataque.

Os senhores da água obtêm seu poder através da propriedade e do controle da água, ou através dos mecanismos de acesso, apropriação e uso em vigor, já que esses lhe permitem beneficiar-se ao máximo dos bens e serviços que a água gera ou pode gerar.

Os conflitos pela água advém da escassez crescente e da falta de solidariedade.

Os senhores da água estão agrupados aos senhores da guerra, aos senhores do dinheiro e aos senhores da tecnologia.

Conflitos internacionais: Rios Jordão, Senegal, Tigre e Eufrates, Nilo, Ganges, etc.

Causas dos conflitos:

1- escassez de água e aumento da demanda;

2- rivalidade étnica e racismo;

3- nacionalismos de todos os tipos;

4- lutas  por hegemonia regional política, econômica e cultural.

90% da bacia do Rio Eufrates fica na Turquia, que ameaçou, nos anos 60, construir 13 barragens para fins de irrigação e geração de energia. A barragem de Ataturk ficou pronta em 1990. A Síria apóia a emancipação dos Curdos no sudeste turco. A Turquia ameaça com a abertura da barragem.

Em 1974 o Iraque ameaçou bombardear a barragem de Tabga na Síria.

A guerra do Golfo envolvia o controle do Shatt Al Arab.

Equador e Peru disputam as nascentes do Rio Cenepa (rica em minerais).

Sudão, Etiópia e Egito disputam a regularidade do Rio Nilo.

Bélgica, França e Suíça assinaram o “Acordo do Rio”, o que consiste em um acordo entre as partes envolvidas para um gerenciamento coordenado e de longo prazo do Rio Reno, visando interesses comuns.

Califórnia, Arizona e Colorado assinaram um acordo baseado no principio  do uso justo e razoável da água.

Enquanto Índia e Paquistão disputam a Cachemira (nascentes do Rio Indo).

3-     Os Senhores do Dinheiro

Em 1989, Tatcher privatizou a água na Grã – Bretanha.

O preço da água subiu em todas as partes do mundo, sem redução do desperdício. Hoje a conta de água representa de 8 a 9% da renda familiar média.

Os principais fatores responsáveis pelo desperdício e ineficiência em geral da água são:

1- a superexploração agrícola;

2- a poluição industrial;

3- falta de  planejamento e gerenciamento global integrado.

Na Índia, a agricultura consome 90% da água, e onde os recursos hídricos subterrâneos encontram-se contaminados.

Jodhpur é uma cidade sedenta e sujeita a desertificação;

O Rio Yamuna abastece Delhi e é o receptáculo de todo tipo de lixo;

O Rio Damodar é o mais poluído da Índia (indústrias de minérios situadas em ambas as margens).

Para os senhores do dinheiro está bastante claro que:

- a água vai ficar mais cara;

- até os pobres estarão  obrigados a comprar água mais cara, não só em garrafas, mas também da torneira;

- a indústria da água engarrafada continuará seu progresso extraordinário dos últimos 10 anos à medida que a diversificação abre novos mercados gigantescos;

- tantos os países ricos como os pobres terão que investir enormes somas na construção ou renovação da infra-estrutura da produção, distribuição e tratamento.

4-Os Senhores da Tecnologia (construtores de barragens e engarrafadores de água).

Existem 40.000 mil barragens no mundo (China, EUA, Rússia, Japão e Índia), 35 mil construídas após 1950.

600 milhões de pessoas no mundo  foram desalojadas pelas barragens, 10 milhões só na China.

Balbina – maior crime ambiental do mundo, seguido pela represa de Katse, em Lesoto.   MAB e MST.

Represa de Birecik (Rio Eufrates na Turquia), inundação de Halfeti e desaparecimento de 31 aldeias.

Para os engarrafadores de água, a água pura é fundamental no “mito da saúde perfeita”.

A água “feita pelo homem” é mais pura que a oferecida pela natureza.

Água para desportistas, aposentados,  crianças, gestantes, etc.

Existem restaurantes só de água (recipientes exóticos e de lugares distantes).

Maiores engarrafadores de água: Nestlé e Danone, seguidas pela Coca-Cola (bonáqua  em  32 países)  e Pepsi.

O velho sonho da dessalinização ainda é uma promessa para o futuro (talvez nos próximos 15 ou  20 anos).

A dessalinização de 1m cúbico de água custa US $ 10,00.

A dessalinização consome muita energia além de gerar muitos resíduos e águas em altas temperaturas.

Para Ricardo Petrella, a  1ª Revolução do século XXI, é  a da Água:

“Que a água seja usada de forma eficiente, cooperativa, democrática e sustentável”.

5- Água e  Saneamento no Brasil  e no Paraná

- Mais de 34 milhões de brasileiros (20%) não são abastecidos com água própria para consumo;

- Mais de 60 milhões de brasileiros (35%) não têm acesso à rede coletora de esgoto e apenas 12% têm esgoto tratado;

- Somente 148 municípios do Paraná (36,8%) possuem local apropriado para o lixo;

- 62% dos municípios paranaenses (247 dos 399) não têm nenhum tipo de rede coletora de esgoto;

- A SANEPAR está operando em 347 municípios, enquanto que os outros 52 têm serviços autônomos;

- Ibiporã se destaca pois 100%  do esgoto recolhido é tratado;

- Para a SANEPAR, em 2000, 44% dos municípios possuiam rede de esgoto, com cerca de 7 milhões de ligações e cerca de 97,5% do volume total de água consumido era tratado;

- Na RMC 55% do esgoto produzido era coletado e desse total, 82% passava por tratamento;

- Na região de Londrina, 67% do esgoto produzido era coletado e tratado, o restante (33%) era despejado nos rios desta região;

- Elevado índice de desperdício de água, tanto nas redes de distribuição quanto no uso pela população;

- Das 27 companhias estaduais de saneamento, 09 têm perdas superiores a 50% no processo de distribuição, enquanto que, em 03 delas o índice está próximo de 70%;

-  No Paraná desperdício de água no processo de distribuição, pela Sanepar atinge 34% (vazamentos, ligações clandestinas e deficiência dos hidrômetros), este índice já beirou 44% e a meta é reduzir para 25 a 28% ;

- 80% das doenças conhecidas  pelo homem são causadas pela falta de saneamento básico;

- 32% do total das internações no SUS, estavam relacionadas a doenças causadas pela falta de saneamento, como cólera, leptospirose, diarréias, entre outras;

- Cada R$ 4,00 investidos em saneamento gera uma economia de R$ 10,00 em internações;

-Custo médio do metro/cúbico de água no Brasil: 0,27 dólares e na França: 2,53 dólares;

Déficit habitacional no Paraná  160.000 unidades:

Em Curitiba 60.000 e em Londrina 20.000;

Curitiba tem 242 áreas de invasão onde vivem cerca de 250 mil pessoas, em habitações subhumanas, à beira de córregos e rios onde proliferam entulhos de lixo e os valetões fétidos de esgoto, que serpenteiam entre os barracos e vão desaguar nos rios da bacia de Curitiba;

Hoje Curitiba exporta miséria para as cidades vizinhas tais como: Pinhais, Piraqüara, Colombo e Almirante Tamandaré

6- Referências:

- PETRELLA, R. O manifesto da ÁguaArgumentos para um contrato mundial. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002. tradução de Vera Lúcia Mello Joscelyne.

- MELO, A. R. de. A piscicultura em cativeiro no município de Andirá – PR. Dissertação de mestrado apresentada à UNESP - Presidente Prudente (SP), 1998.

- TUNDISI, J. G. Água no século XXI – Enfrentando a escassez. São Carlos (SP): Rima, IIE, 2003.

- BRANCO, S. M. Água: origem, uso e preservação. São Paulo: Moderna, 1993. Coleção Polêmica.

- CREA PR. Revista CREA/PR. Órgão oficial do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado do Paraná.Nº  13, 18, 20, 21 e 23.

- SANEPAR – Companhia de Saneamento do Paraná. Formação de Gestores  Ambientais. Parte II. Curitiba: Sanepar, 2001.

- TORRES, P. L. (Org.). Uma leitura para os temas transversais: ensino fundamental. Curitiba: SENAR, 2003. Programa Agrinho.