[EcoDebate] O governo dos Estados Unidos emitiu nesta semana o mais forte sinal de que a posição do país em relação aos problemas ambientais do planeta sofreu de fato uma forte mudança com a eleição de Barack Obama. Ao mesmo tempo, a Casa Branca trouxe subsídios que revelam os efeitos do aquecimento global já presentes de forma preocupante naquele país.

Um relatório divulgado na terça-feira pela Casa Branca começa a dar um novo tom para a questão. O estudo, chamado “Os impactos da alteração global do clima nos EUA”[Global Climate Change Impacts in the United States], foi coordenado por dois dos mais importantes organismos de monitoramento ambiental do país, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (Noaa, na sigla em inglês) e o Laboratório Marinho e Biológico de Woods Hole. O trabalho tem também a parceria de 13 agências e departamentos de Estado.

O impacto ambiental revelado pelo estudo pode ser medido pelos depoimentos de seus autores durante o lançamento, como o de Jane Lubchenco, diretora da Noaa, que foi bastante clara quanto à necessidade de tratar o aquecimento do clima como um problema real do cotidiano: “Este relatório provê informações científicas concretas que dizem, sem margem de erro, que as mudanças climáticas estão acontecendo agora, nos nossos quintais, e afetam as coisas com as quais as pessoas se preocupam em seu cotidiano”, ela disse.

Thomas Karl, diretor do Centro de Informação Climática do Noaa e um dos principais autores, foi na mesma linha de convencimento de que o problema já está inserido no dia a dia: “Gostaríamos de deixar claro que as mudanças climáticas já estão em curso e afetam nossas vidas. Não se trata de um fenômeno restrito às geleiras do Ártico”.

O relatório informa que o país já sofre alteração em rios e com tempestades mais frequentes, além de aumento de temperatura e do nível dos oceanos. Os efeitos do aquecimento já estão acontecendo agora. Como disse outro autor, Anthony Janeto, “não se trata de algo teórico que acontecerá em 50 anos”.

Já as previsões para o futuro, caso não aconteçam ações imediatas, estão além da imaginação de roteiristas de filme-catástrofe. O relatório estima que até o final do século a temperatura média dos Estados Unidos estará 11°C mais alta.

A água será um problema com efeitos variados. Vai fazer falta no sudoeste do país, que pode se tornar seco e quente, afetando o meio ambiente de forma gravíssima. E a costa leste sofrerá bastante com a subida dos oceanos.

Também em razão da elevação dos oceanos, os autores prevêem que Nova York e Los Angeles serão parcialmente submersas. Temperaturas altas destruirão pântanos e a agricultura da Flórida e deixarão os Grandes Lagos mais vazios. Ainda em razão do calor, Chicago estará quentíssima e os vinhedos da Califórnia serão extintos.

Levando em conta como estará a humanidade depois do percurso até estes tempos dramáticos que o estudo prevê, é uma visão do fim do mundo. É a primeira vez que um documento oficial do gênero, o primeiro do governo Obama, dá tamanho peso aos problemas causados pelo aquecimento.

A administração anterior, de George W. Bush, não só evitou o estabelecimento de limites para a emissão de gases do efeito estufa, negando-se a participar do Protocolo de Kyoto, como até estimulava de forma política e financeira a indução na opinião pública de que a interferência humana não seria responsável pelo problema climático.

O governo chegou a contratar institutos de pesquisas para a divulgação deste tipo de tese. E esta visão manipulada e equivocada evidentemente se espalhou pelo mundo, com influência inclusive sobre a mídia, a classe política e a opinião pública no Brasil.

O relatório da Casa Branca mostra que é provável que esteja enfim acontecendo uma mudança de rota na política dos Estados Unidos para o meio ambiente, o que pode trazer alguma esperança para a humanidade. Afinal, pelo efeito de sua economia sobre o planeta e por seu poder tecnológico e militar, sem o empenho dos Estados Unidos a questão climática jamais terá solução.

Colaboração do Movimento Água da Nossa Gente, para o EcoDebate

[EcoDebate, 22/06/2009]