DAVOS - Sexta 23 Janvier 2004
por  FABIO LO VERSO,

Tradução: Lucas Matheron*


Irritado  pelas queixas de um ativista durante um debate no Open Fórum, o «patrão  » da Nestlé anunciou o fim da controversada exploração de uma fonte de água mineral no Brasil.

Quando  o  embaixador de um movimento cidadão pede explicações ao patrão de uma  multinacional,  nem  sempre  volta para a casa sem resultado concreto.
Ontem  em  Davos (Suiça), bastou ao militante brasileiro Franklin Frederick uma  simples  interpelação  para  provocar a reação, irritada, do patrão da Nestlé,  Peter  Brabeck-Letmathe.  Num  impulso  diante  do público do OpenFórum,  este  anunciou  nem  mais  nem  menos  que a multinacional de Vevey(Suiça)  renunciaria à exploração da fonte de água mineral de São Lourenço,no  Brasil. Esse anúncio, se se traduzisse em fatos, acabaria com uma briga contra  a  Nestlé na qual se engajaram, desde 1999, os habitantes da cidade brasileira. E é exatamente esse desfecho que o Sr. Frederick busca arrancar através  da  sua ação como responsável do movimento brasileiro de Cidadania pelas  Águas.  A  organização  acusa  de  fato  a  multinacional  da gestão
catastrófica das águas da região.

EXPLORAÇÃO ABUSIVA DAS ÁGUAS

O ativista dirigiu-se ao Sr. Brabeck apelando à « responsabilidade social e ambiental  »  que  o  patrão  do  grupo  de Vevey esforçou-se em demonstrar falando  da sua empresa diante do presidente da Confederação, Joseph Deiss.
Se  a  Nestlé  se  orgulha  do  fato de ela respeitar as populações locais,porque  a  empresa  não  faria  o  mesmo com os habitantes de São Lourenço,argumentou,  resumindo,  o Sr. Frederick. « Se existe a vontade de fazer, é
porque  existe  também os meios de conseguir » disse ele, retomando por sua conta o título que os organizadores do Open Fórum deram ao debate.
Mas,  antes  de  alcançar  um  ponto  fraco pelo patrão do gigante do setor alimentício,   o   militante   não  se  absteve  de  observar,  frente  aos participantes,  que  por  causa  da  fonte de São Lourenço a Nestlé esta na
berlinda  no  Brasil. Pois a multinacional está sob ação judicial devido ao fato  de  ter  desmineralizado as águas da fonte indevidamente. Acontece que esse procedimento transgride a legislação federal brasileira segundo a qual
as águas minerais não devem ser alteradas.
Além  disso,  a  exploração  «  desenfreada  » da fonte fez cair o nível do lençol freático, verdadeiro reservatório natural da cidade. Se uma das oito fontes  de São Lourenço está totalmente esgotada, mudou o sabor da água nas outras.

CAFÉ LIBERADO, MERCADO AMARGO

Uma   coisa  é  certa  :  essa  estória  não  agrada  muito  ao  patrão  da multinacional.  Deve  até  muito irritá-lo. Tanto que o Sr. Brabeck decidiuparar a exploração da fonte : « Assim sendo, o caso está encerrado » cortou
ele. Manterá a palavra ? Alguns ativistas perguntavam-se no encerramento do debate.
Nada  deixava  prever esse fecho. Organizada para fazer um balanço sobre as implicações do fracasso da OMC em Cancún, as discussões concentraram-se num primeiro  momento  sobre  a  supressão  dos  subsídios  na  agricultura. Em seguida,  os  participantes  debruçaram-se  um  momento sobre o impasse que ocorre  com o mercado do café, cuja liberação provocou uma queda brutal dos preços  para  os  produtores. O que resultou no empobrecimento repentino de milhões  de agricultores. E, pensando trazer uma solução para o problema, o
patrão  da  Nestlé  não achou nada melhor que de preconizar um « aumento do consumo  ».  O público evidentemente desaprovou. Alguns vaiaram na saída do Sr  Brabeck. E com razão : o grupo de Vevey possui várias marcas de café, e um aumento das vendas seria vantajoso, em primeiro lugar, para o seu caixa.

Tradução : Lucas Matheron, correspondente internacional da Rede CTA-JMA
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Franklin Frederick  no centro de branco