Água: vital para a reprodução da vida no planeta

 entrevista com Wagner Costa Ribeiro

março 23, 2011

Wagner Costa Ribeiro reconhece que há situações onde predominam os interesses dos grandes usuários de água, que são principalmente as empresas de saneamento básico

“A questão da escassez tem que ser vista da seguinte forma: existe água em abundância no planeta? Sim. Existe água com qualidade? Sim. Existe água em abundância, com qualidade onde é necessário? Em alguns lugares, não. A dificuldade é a distribuição política da água. É fazer essa água estar junto aos agrupamentos humanos, sem a fonte estar contaminada. Então, se isso não ocorrer, a água se torna um bem raro, portanto, uma mercadoria mais cara”. A reflexão é do professor Wagner Costa Ribeiro, autor do livro Geografia Política da Água (São Paulo: Editora Annablume, 2008). Na entrevista que segue, concedida, por telefone, à IHU On-Line, ele lembra que hoje, em países pobres, inclusive em parte do Brasil, a maior parte das internações hospitalares ocorre em função da contaminação a partir da água. “São populações que sofrem doenças a partir da água. Em vez da água ser uma substância para repor elementos importantes para a vida, ela acaba se transformando num vetor de doença”.

Geógrafo e doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo – USP, Wagner Ribeiro é professor do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP. Obteve a livre docência também na USP, e realizou estudos de pós-doutorado na Universidad de Barcelona. É coordenador do Grupo de Pesquisa de Ciências Ambientais do Instituto de Estudos Avançados da USP. Além da obra já citada, é autor de outros livros, entre os quais citamos A ordem ambiental internacional (São Paulo: Contexto, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que sentido podemos pensar na água como fonte de riqueza? Como entender que a água é vista como mercadoria em escala internacional?

Wagner Costa Ribeiro – Ela é vista como fonte de riqueza porque é um insumo fundamental para a produção agrícola e industrial, mas é, principalmente, uma substância vital para a reprodução da vida no planeta, inclusive da espécie humana. A água já é vista como mercadoria em alguns países do mundo, inclusive no Brasil, pois se cobra por ela, não apenas pelo serviço de coleta, tratamento e distribuição, mas também pela própria água.

IHU On-Line – A justificativa para essa cobrança é a escassez?

Wagner Costa Ribeiro – A questão da escassez tem que ser vista da seguinte forma: existe água em abundância no planeta? Sim. Existe água com qualidade? Sim. Existe água em abundância, com qualidade onde é necessário? Em alguns lugares, não. A dificuldade é a distribuição política da água. É fazer essa água estar junto aos agrupamentos humanos, sem a fonte estar contaminada. Então, se isso não ocorrer, a água se torna um bem raro, portanto, uma mercadoria mais cara.

IHU On-Line – O que podemos entender pelo conceito defendido pelo senhor na obra Geografia Política da Água?

Wagner Costa Ribeiro – A geografia política da água procura estudar justamente, de que maneira, a apropriação da água pela espécie humana ocorre ao longo dos tempos. Isso tem que ser analisado da seguinte maneira: nós temos estoques de água naturais, sejam subterrâneas ou que correm nos rios, e isso aconteceu por processos naturais. Porém, a apropriação dessa água ocorre por processos históricos, sociais, políticos, que envolvem trocas comerciais, guerras, domínios territoriais. Geografia Política da Água procura mostrar de que maneira ocorreu a apropriação desses recursos naturais, no caso, a água, a partir dos processos históricos. Muitas vezes, infelizmente, com conflitos ou com trocas comerciais desiguais.

IHU On-Line – Quais as consequências sociais e ambientais do acesso desigual aos recursos hídricos no planeta?

Wagner Costa Ribeiro – As consequências sociais são as mais relevantes, embora hoje podemos falar mais em consequências socioambientais. Mas a situação é mais grave do ponto de vista social, pois, hoje, em países pobres, inclusive em parte do Brasil, a maior parte das internações hospitalares ocorre em função da contaminação a partir da água. São populações que sofrem doenças a partir da água. Em vez de a água ser uma substância para repor elementos importantes para a vida, ela acaba se transformando num vetor de doença. O problema é que o acesso à água ainda é desigual. Dia 18 de abril, haverá uma corrida de rua no mundo inteiro, de seis quilômetros, para justamente chamar a atenção de que a distância média que as pessoas percorrem para conseguir água potável, muitas vezes, abastecendo a lata d’água que carregam na cabeça, é de seis quilômetros. Do ponto de vista ambiental, a principal consequência é a introdução de elementos estranhos na água, no caso, a contaminação. Isso acontece pelo uso intensivo na agricultura, pelo uso intensivo de agrotóxicos que acabam contaminando a água, e também o processo de industrialização, que usa a água como insumo para a produção e depois não trata a água antes de devolvê-la para o rio. A espécie humana também tem sua parcela importante, porque,no caso brasileiro, principalmente, nós ainda não tratamos o esgoto, que acaba sendo uma fonte de contaminação da água também.

IHU On-Line – Que cenário podemos vislumbrar a curto prazo a partir de crises localizadas de falta de água? Fala-se até em guerras futuramente envolvendo a disputa pela água…

Wagner Costa Ribeiro – Quando se fala em guerra por água, é importante lembrar que já houve, no passado, situações de tensão extrema, que levaram à confrontação. Guerra não significa necessariamente a confrontação armada, pode ser uma relação hostil, uma troca de tensão etc. Às vezes, declarações tensas já são interpretadas como um conflito. Então, já tivemos conflitos pela água e certamente teremos outros. E aí já temos áreas apontadas e conhecidas como de tensão. A mais grave no planeta hoje é a zona entre Palestina e Israel. E também temos a fronteira entre México e Estados Unidos.

IHU On-Line – Em que medida a crise da escassez de água afeta a questão do saneamento básico?

Wagner Costa Ribeiro – A relação é direta. Se não tivermos a capacidade de tratar o esgoto, estaremos contaminando os rios. As pessoas gostam muito de utilizar tinta no cabelo, passar xampus diferentes, e esquecem que, depois, isso tudo é levado pela água, vai se concentrar em larga escala, e em metrópoles como Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, com milhões de habitantes jogando esses insumos na água, imagine a contaminação que isso gera, só para falar da questão do esgoto.

IHU On-Line – Como fazer com que as políticas públicas beneficiem o uso coletivo e igualitário da água?

Wagner Costa Ribeiro – Temos hoje os comitês de bacia que deveriam ser o instrumento de determinação do uso da água a partir dos planos de bacia hidrográfica. Em algumas regiões do país, isso já está mais avançado, e, em outras, não está. Há muito desequilíbrio no Brasil em relação a essa questão. Infelizmente, há situações onde predominam os interesses dos grandes usuários de água, que são principalmente as empresas de saneamento básico.

(Ecodebate, 23/03/2011) Entrevista realizada por Graziela Wolfart e publicada pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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