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De olho na água, Nestlé avança no RS

09/09/2005

Por Daniel Cassol
Fonte Jornal Brasil de Fato

Os cerca de 50 prefeitos gaúchos que fizeram visitas ao presidente nacional da Nestlé, Ivan Zurita,

aguardam com ansiedade o final do mês de outubro, quando a transnacional deve divulgar em qual

município do Rio Grande do Sul vai instalar sua fábrica para produção de leite em pó. Enquanto governo

e prefeituras comemoram os R$ 120 milhões que devem ser investidos e os 400 empregos que serão

criados, o histórico da empresa e as suas atuais ambições preocupam os movimentos sociais.

"Quando uma grande transnacional como a Nestlé se instala em uma região, aos poucos ela passa a ter

hegemonia sobre aquele produto. Isso acontece no Brasil inteiro", afirma Roberto Malvezzi, da

coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Relatório da organização ActionAid mostra

que, na década de 1990, a Nestlé e a Parmalat expulsaram mais de 50 mil produtores de leite da cadeia

de fornecedores, após terem comprado um grande número de cooperativas de leite no Brasil. "Muitos

produtores não conseguiram cumprir os novos e estritos padrões impostos por aquelas duas empresas.

 "Com freqüência, as empresas transnacionais estabelecem as regras do jogo comercial, decidindo quem

 vai ser incluído ou excluído de suas cadeias de fornecimento", diz o relatório.

Problemas

Experimentada, a direção da empresa já anunciou que pode adquirir até 3 milhões de litros de leite por dia

e pagar até R$ 0,55 por litro, enquanto a média atual está em R$ 0,45 por litro. "Não existem problemas

 em nenhuma região onde compramos leite", afirmou, ainda, o presidente nacional da companhia, em

entrevista no dia 23 de agosto.

Não existem problemas para a Nestlé, foi o que provavelmente quis dizer o presidente. Porque os

problemas para os pequenos produtores de leite são muitos. "Empresas como a Nestlé desmoronam o

trabalho das cooperativas de produção familiar, que coletam o leite. Colocam equipamentos, financiam

os animais e deixam o produtor amarrado durante muito tempo", relata Adriano Peres, da coordenação

 estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) em Goiás. Desde junho deste ano, a Nestlé

parou de comprar leite da Centro Leite, que reúne 14 cooperativas de produção, a maioria de pequenos

produtores de Goiás. A Nestlé compra 350 mil dos 700 mil litros vendidos pela central diariamente.

Os produtores que vendiam o leite a R$ 0,64 o litro no início do ano hoje não conseguem mais que R$ 0,46.

Mas existe outro perigo com a chegada da Nestlé, além da quebradeira que ela costuma provocar nos

pequenos produtores de leite. Os dois municípios mais cotados para receber a fábrica de leite em pó são

Santa Rosa e Carazinho, que ficam nas regiões norte e noroeste do Estado, de fácil acesso ao Aqüífero

Guarani(*), maior manancial de água doce subterrânea do mundo, com dois terços de sua área total no

 Brasil. "No mundo contemporâneo, a água também é um negócio. Uma das transnacionais que fazem

da água uma mercadoria é a Nestlé. Quando ela chega ao Rio Grande do Sul, e ela está procurando o

Aqüífero Guarani, evidentemente está com o mapa da mina na mão", afirma Malvezzi. A Nestlé já tem,

no Estado, uma fábrica de produção de ração animal, em Camaquã, próxima da Lagoa dos Patos.

Minas Gerais

O integrante da CPT lembra o caso de São Lourenço (MG), onde a empresa conseguiu licença para

explorar os lençóis subterrâneos de água mineral, passando a produzir a água mineral da marca Pure Life,

 desde 1999. A Nestlé sofre hoje um processo por causa da desmineralização e da superexploração da

 água, o que fere a legislação.

Cássio Mendes, ex-vereador do PT no município e integrante do Mo- vimento Amigos do Circuito das

Águas Mineiro, conta que a primeira ação da Nestlé foi subestimar a resistência dos movimentos sociais.

Embora considere positivo o acordo feito entre a empresa e os movimentos sociais, mediado pelo

 Departamento Nacional de Produção Mineral (vinculado ao Ministério de Minas e Energia), afirma que

a sociedade tem de estar atenta para impedir o que aconteceu no seu município.

(*) Aqüífero Guarani - Maior reservatório de águas subterrâneas do mundo, se estende por Argentina,

Brasil, Paraguai e Uruguai. Tem extensão total de aproximadamente 1,2 milhão de km², sendo 840 mil km²

no Brasil. As reservas permanentes de água são da ordem de 45 trilhões de metros cúbicos.

Tribunal popular vai julgar crimes da empresa

Em outubro, a Nestlé vai sentar no banco dos réus por conta de crimes ambientais e violação de direitos

humanos. O tribunal popular será realizado na Suíça. Dom Tomás Balduíno vai representar os movimentos

 sociais brasileiros no júri. Com os pés e as mãos no Brasil há mais de um século, a Nestlé conta com

26 fábricas em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Rio Grande do Sul.

 Segundo informações da página da empresa na internet, a Nestlé compra anualmente 1,5 bilhão de litros

de leite no Brasil. Aquarel, Perrier, Petrópolis, São Lourenço e Pure Life são as marcas de água mineral

 produzidas pela multinacional.

Em janeiro deste ano, foi escolhida como a transnacional mais irresponsável do planeta, de acordo com o

Fórum Alternativo de Davos, na Suíça. Ficou na frente das empresas Dow Chemical, Shell, KPMG e

Wal-Mart, todas consideradas as mais irresponsáveis do planeta nas questões sociais e ecológicas.

 A companhia foi eleita a "mais irresponsável" por seus conflitos trabalhistas na Colômbia e suas agressivas

 campanhas de marketing para promover substitutos do leite materno, que prejudicam a amamentação,

especialmente em países em desenvolvimento, expondo milhões de bebês a riscos de um desmame precoce,

 com as conseqüências epidemiológicas, sociais e econômicas.

A caminho da privatização

Em março, a Assembléia Legislativa gaúcha manteve o veto do governador Germano Rigotto (PMDB) a

um artigo do projeto das parcerias público-privadas (PPPs) que excluía a água dos serviços que podem ser

fruto de parcerias, acompanhando o projeto de PPPs defendido pelo governo federal. "O fato de o

governador ter vetado exatamente a restrição às possíveis parcerias entre empresas e governo na utilização

das águas causa estranheza e inquietação", alerta o professor João Hélio Pes, do Centro Universitário

 Franciscano e da Universidade da Região da Campanha. O veto do Executivo se baseava no argumento

de que "somente o governador tem legitimidade para apresentar proposta que venha a conferir ações à

Companhia Riograndence de Saneamento (Corsan), ou mesmo excluir atribuições da mesma". "Tal

argumentação é inconsistente e, inclusive, mal elaborada, pois, ao vetar emenda que visava proteger os

denominados bens ambientais de uso comum do povo, abre caminhos para possíveis explorações

econômicas das riquezas imensuráveis que estão no nosso subsolo, ou seja, as águas subterrâneas dos

 nossos aqüíferos", avalia Pes.