Nestlé, Pure Life e águas minerais

                CARLOS A. LEITE
    Do Colégio Americano dos Médicos

                           

As leis da natureza são fixas, pré-determinadas, objetivas e acuradas. A ganância da espécie humana, associada à presunção e à ignorância na tentativa insólita de modificar as leis da natureza, invariavelmente nos conduz a um estado caótico da ecologia. As Minas Gerais, terra abençoada pela natureza, é rica de minerais no seu subsolo; 35% da exploração de minérios estão no subsolo das Minas Gerais, e, em sua região Sul, a fama adquirida pela riqueza da água mineral, recomendada por médicos para uma dezena de doenças, alcançando sucesso maior do que a terapia medicamentosa química, propagou-se ao exterior.

Logro. Entretanto, desde que a Nestlé assumiu o controle do Parque das Águas de São Lourenço e criou a Pure Life, uma água desmineralizada, os sanlourenceanos e turistas que freqüentam o parque em busca dos poderes curativos das águas minerais sentiram-se progressivamente vítimas de logro: a Nestlé, embarcando na corrida da globalização, maliciosamente implantada pelo atual Governo, fechou várias fontes, reduziu a produção da água mineral e começou a exportar, ao lado da Pure Life, o minério criminosamente extraído das águas minerais, em afronta aberta à legislação da exploração de minerais no subsolo nacional.

Acobertada pela inércia do Ministério da Saúde, hoje em dia um órgão de economistas sem a menor visão sanitária, e pela preguiçosa e sonolenta atividade do Departamento Nacional de Produtos Minerais, que não autorizaram esta extração ilegal, e muito mais, fecham os olhos ao fato, demonstrando abertamente que não têm o menor interesse em coibir uma atividade proibida.

Aliás, desde que o jornal O Estado de Minas, em setembro de 2000, denunciou as atividades de favorecimento na extração de diamantes, que iriam alertar a Advocacia Geral da União para a atuação criminosa e indevida do órgão, outros 18 processos foram instaurados, todos comprovando o favorecimento a grandes grupos.

No caso das águas minerais de São Lourenço, o crime contra a população é maior porque estão sendo enganados tanto a classe médica, que prescreve as águas minerais medicinais para um sem-número de enfermidades, quanto o povo, que pensa estar ingerindo uma água rica em minerais.

Ferro. Estranha-se, pois, o silêncio do Conselho Federal de Medicina, sempre alerta em defesa da população contra a exploração da saúde do povo. Os poços perfurados indevidamente pela Nestlé, na volúpia gananciosa, fogem a qualquer legislação. A única extração autorizada é a retirada do ferro das águas minerais que, engarrafadas para o comércio, poderiam vir a ter o ferro impregnado no vidro ou nas tampas das garrafas, dando uma aparência amarronzada ou escura ao vidro ou ao plástico. Não é permitida a extração do magnésio, do cálcio, do lítio, do zinco, do manganês.

O jornal O Estado de Minas, na sua edição do último dia 30 de abril, volta a mostrar uma série de irregularidades sucessivamente descobertas no favorecimento a grandes grupos na exploração de jazidas de diamantes. Estas riquezas minerais movimentam a impressionante cifra de US$ 9,3 bilhões. O relatório da Advocacia Geral da União é duro: constata irregularidades que subsistem.

O procurador do Ministério Público deve voltar sua atenção agora à destruição criminosa de nossa reserva aqüífera, através de um monitoramento contínuo da qualidade e quantidade de nossas águas minerais, pois somente assim poderemos ter a tranqüilidade de estarmos usufruindo os benefícios que a natureza nos deu e que a mão de gato do homem nos quer tirar.