Águas de São Lourenço ou da Nestlé?

 

Por Frei Gilvander Moreira

No princípio era a água; e a água se fez “carne”: criaturas todas do universo. Não somos apenas filhos e filhas da água. Somos mais. Somos água que sente, que canta, que pensa, que ama, que deseja, que cria ... Deus cria a partir das águas. Só podemos ser co-criadores a partir das águas. Quem não defende, respeita e não tem uma relação de veneração e de encantamento para com as águas não pode ser criativo. Estará jogando no time dos assassinos da nossa mãe, irmã e nosso próprio ser: a água.

Há alguns anos a Nestlé vem utilizando os poços de água mineral de São Lourenço, no Sul de Minas, para fabricar água marca PureLife. Diversas organizações da cidade vêm combatendo a prática, por muitas razões. As águas minerais, de propriedades medicinais, e baixo custo, eram um eficiente e barato tratamento médico para diversas doenças, que entrou em desuso, a partir dos anos 50 do século XX, pela maciça campanha dos laboratórios farmacêuticos para vender suas fórmulas químicas através dos médicos. Mas o poder dessas águas permanece. Médicos da região, por exemplo, curam a anemia das crianças de baixa renda apenas com água ferruginosa.

Para fabricar a PureLife, a Nestlé, sem estudos sérios de riscos à saúde, desmineraliza a água e acrescenta sais minerais de sua patente. A desmineralização de água é proibida pela Constituição Brasileira. Cientistas europeus afirmam que nesse processo a Nestlé desestabiliza a água e acrescenta sais minerais para fechar a reação. Em outras palavras, a PureLife é uma água química.

A Nestlé está faturando em cima de um bem comum, a água, além de o estar esgotando as jazidas por não obedecer às normas ambientais, expondo a saúde da população a riscos desconhecidos. O ritmo de bombeamento da Nestlé está acima do permitido. O terreno do Parque das Águas de São Lourenço está afundando devido ao comprometimento dos lençóis subterrâneos. A extração em níveis além do aceito está comprometendo os poços minerais, cujas águas têm um lento processo de formação. Dois poços já secaram. Toda a região do sul de Minas está sendo afetada, inclusive estâncias hidrominerais de outras localidades.

O governo de Minas (PSDB), baixou portaria que regulamenta a atividade da Nestlé. Ao invés de multas, deu uma autorização, mesmo ferindo a legislação federal. O governo Federal está apoiando a Nestlé, porque ela apóia o Programa Fome Zero. A Nestlé, como estratégia de marketing, incentiva os consumidores a comprar seus produtos, alegando que reverte lucros para o Fome Zero. Quanto? Migalhas? Há décadas a Nestlé tem sido alvo de denúncias internacionais por propaganda mentirosa, enganando mães pobres e educadores para a substituição de leite materno por produtos Nestlé, em um dos maiores crimes contra a humanidade.

Mais preocupante: o Governo Federal anunciou que irá alterar a legislação, permitindo a desmineralização "parcial" das águas. "Parcial" ou "integral", a desmineralização é combatida por cientistas e pesquisadores de todo o mundo. Por que alterar a legislação em um item que apenas interessa à Nestlé? Lei não é norma geral e abstrata?

Outras empresas como a Coca-Cola estão no mesmo caminho da Nestlé, adquirindo terrenos em importantes áreas de fontes de água. Tratam a água como mercadoria.

São Lourenço foi martirizado durante a perseguição de Valeriano, em 258. Cuidava dos empobrecidos, órfãos e viúvas. Preso, foi intimado a prestar contas dos bens e das riquezas que a Igreja possuía. São Lourenço reuniu os cegos, os coxos, os aleijados, toda sorte de enfermos, crianças e velhos. Anotou-lhes os nomes e os repassou ao governador. Exclamou, indicando aqueles míseros: "Eis as riquezas da Igreja!". Indignado, o governador condenou-o a um suplício especialmente cruel: amarrado sobre uma grelha, foi assado vivo e lentamente. Dia 10 de agosto é dia de São Lourenço. Hoje, São Lourenço diria apontando para as águas: “Eis a maior riqueza, fonte de vida que não pode mais ser tratada como mercadoria.” Vamos continuar lutando até convencermos os governadores de hoje a pararem de autorizar o assassinato das águas em licenciamentos que são na verdade arremedos.

Daqui a pouco, se não for interrompido o modelo de desenvolvimento capitalista, profundamente depredador das águas, fonte de vida, e causador de uma grande “sojeira” social e ambiental, teremos que dizer, em breve, com dor no coração: “As águas de Minas são apenas um quadro na parede.” Se continuarmos colocando a irmã água de joelho aos nossos pés, em breve, ficaremos de joelhos ao lado de toda criação humilhada e estaremos caminhando para o cemitério. O aquecimento global é sinal dos tempos e dos lugares.

A 11ª Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais denuncia as empresas transnacionais e os governos que avançam sobre a mãe terra e a irmã água com uma volúpia sem tamanho, em um projeto capitalista concentrador de riqueza e poder e socializador de miséria e depredação ambiental.

Em nome do Deus da vida, da beleza e do encanto das águas e da terra e em nome das futuras gerações contamos com todos/as para que, unidos e organizados, lutemos pela construção de uma sociedade sustentável. Mãos à obra!

Boicote os produtos Nestlé e Coca-cola!

Frei Gilvander Luís Moreira (e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br), da coordenação do Movimento Capão Xavier Vivo – www.capaoxaviervivo.org