06/08 - 13:54 - Agência Estado

A Nestlé se envolveu em uma polêmica de espionagem com ramificação no Brasil. ONGs suíças estão acusando a empresa de ter infiltrado uma espiã entre seus militantes para obter informações sobre movimentos que possam prejudicar a multinacional.

No Brasil, a suspeita de advogados das ONGs é de que informações sobre ativistas do Movimento de Amigos do Circuito das Águas Mineiro (Macam) - que apontam dano ambiental resultante de investimentos da Nestlé no Rio São Lourenço - teriam sido passados pela espiã. Nos últimos meses, a Nestlé vem tentando negociar uma solução com o governo mineiro e com ONGs para aumentar a capacidade de produção de sua água São Lourenço, em Minas. Hoje, está limitada a 13 milhões de litros/ano. Para a Nestlé, poderia ser três vezes maior.

Um dos líderes do Macam é Franklin Frederick, que, segundo Rodolf Petit, advogado suíço que trabalha no caso, também teria tido suas informações repassadas à Nestlé por meio da espiã.

O Estado tentou contato anteontem e ontem com representantes do Macam. Telefones de Frederick ou em nome da ONG não foram encontrados na lista telefônica. A prefeitura de São Lourenço informou por meio de sua assessoria de comunicação que desconhece a existência da organização. Em seu site na internet, a entidade não divulga contatos telefônicos. A ONG se define como "um grupo de cidadãos que defende o uso livre da água sem vinculação com valor econômico". Afirma ainda que se opõe à atuação da Nestlé no "secular Parque das Águas de São Lourenço".

Defensiva

A iniciativa da Nestlé teria ocorrido em 2003, quando o movimento anti-globalização Attac decidiu preparar um livro sobre a empresa. Segundo o caso que foi apresentado à Justiça da Suíça, a estratégia foi infiltrar alguém na ONG não apenas para saber de que se tratava o livro, mas também obter informações sobre quem eram as pessoas que trabalhavam contra a empresa em vários países. Para isso, foi enviada à ONG a "ativista" Sara Meylan, que na realidade era uma funcionária da empresa de segurança privada Securitas. Dentro da ONG, Sara produziu dezenas de perfis de militantes, com nome, altura, cor de cabelo e pele, idéias, idade, perfil político e até mesmo hobbies. O livro foi publicado em 2005 - Attac contra o Império Nestlé. Sara teria atuado na Attac entre setembro de 2003 e junho de 2004.

Admissão

A Nestlé, em comunicado, reconheceu que pediu a ajuda da Securitas. Mas alertou que a Justiça precisará entender as circunstâncias daqueles anos. A multinacional acredita que a ONG Attac estaria disposta a usar métodos violentos. "Lembrem-se da atmosfera tensa em torno do G-8 (reunião dos países mais industrializados) em Evian em 2003: já em março, José Bové, com membros da Confederação Camponesa e outras pessoas reunidas sob a bandeira da Attac, atacou a sede da Nestlé em Vevey, causando danos materiais significativos (...) Tratava-se de violência deliberada acompanhada de ameaças concretas", diz a nota. "Nessas circunstâncias, nos pareceu natural pedir à Securitas, sociedade privada que garante a proteção de nossos escritórios há mais de 30 anos, que nos ajudasse a antecipar novos atos de violência." A Nestlé, porém, afirma que não estaria de acordo com a tática de infliltrar uma espiã. "A infiltração deliberada de uma ONG não é coerente com os princípios de conduta do grupo Nestlé", disse na nota Hans Peter Frick, representante legal da empresa.

No dia de 23 de julho, a empresa e a ONG foram chamadas à Justiça de Lausanne. A multinacional alegou que as fotos que faziam parte das fichas sobre cada ativista foram "tiradas em locais públicos". Os advogados dos ativistas rebatem: "Não são apenas relatórios. São fichas de cada uma das pessoas", afirmou Petit. "Não sabemos o que foi feito com as informações quando elas chegaram à empresa."

A Justiça suíça está investigando as acusações e, nas próximas semanas, promete anunciar seu parecer. As informações são do O Estado de S. Paulo

*C/ Eduardo Kattah